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Entrevistas

Elisabete Ladeira e “A Aventura de uma Gotinha”

 

 

Elisabete Ladeira, é uma autora multidisciplinar, lisboeta de 39 anos, com um público alvo muito específico, as crianças.

 

O segredo da escritora de “A Aventura de uma Gotinha” foi sempre sonhar. Sonhou ser educadora, escritora, cantora e assim foi sempre conseguindo concretizar os seus sonhos.

 

Mesmo nesta fase difícil em que estamos a ultrapassar da pandemia, foi desafiada, com o apoio incondicional da sua mãe e com a dedicação da editora Flamingo Edições, a lançar o seu primeiro livro para crianças, em que a história é em torno de uma Gotinha de Água no seu ciclo natural. Educa não só os seus alunos pela importância dela, como todas as crianças que desfrutem da história e sensibiliza os adultos que a leem aos seus mais pequenos.

 

Neste seu primeiro livro, Elisabete Ladeira tem a oportunidade de fazer chegar mais longe, a mais crianças, tanto a componente lúdica como a educativa, para esta causa tão nobre que é preservar a água.

 

AMMA: Na sua experiência de educadora, o contar uma história às crianças teve influência directa na materialização desta história e do livro. Quando conta uma história aos seus alunos e vê que ela lhes toca os corações, que emoção tem nesse momento?

 

Elisabete Ladeira: Sinto uma enorme alegria…e um sentimento de dever cumprido, invade o meu coração.

É maravilhoso perceber que a mensagem foi compreendida e chegou ao destinatário.

Na verdade, esta história surgiu da necessidade de trabalhar o ciclo da água e o esquema corporal, com um grupo de crianças de 2/3 anos. Ao querer fugir ao que já existia, dei comigo a fazer o que realmente me fazia sentido.

E quando a contei na sala, a reacção das crianças foi maravilhosa.

Na verdade, da 3ª vez que a contei, o meu grupo  já antecipava uma quantidade significativa de rimas, o que vem provar que os textos poéticos, pela sua sonoridade, são mais facilmente entendidos e interiorizados pelos mais pequenos.

 

AMMA: Em que consiste a base desta obra? Qual o ponto que quer transmitir e consciencializar tanto os mais pequenos como os adultos que lhes estão a ler o livro?

 

EL: Esta obra foca um tema que me parece dos mais pertinentes da actualidade, a importância da Água para a preservação da vida no nosso planeta e as formas de a rentabilizarmos de forma sustentável.

 

AMMA: É fácil sentar um grupo de crianças a ouvir uma história?

 

EL: Quando se é apaixonada por aquilo que se faz, sim… desde que me conheço como gente, sempre estive rodeada de livros e histórias de encantar, fruto de uma mãe, também ela educadora, e que sempre adorou ler e me transmitiu essa enorme paixão pelos livros e de um pai com um enorme talento para o fado e uma enorme facilidade para fazer rimas.

O mesmo acontece com as crianças com quem trabalho. Se demonstro alegria e prazer naquilo que estou a fazer, mais facilmente desperto o interesse das mesmas promovendo nestas o gosto pelas histórias e despertando a curiosidade para esse objecto tão especial… o livro…

A hora da história é um momento de partilha, descontração e divertimento, pois a componente lúdica é fundamental nestas idades.

 

AMMA: Quais as faixas etárias em que são mais curiosos, atentos e para os quais desenvolve a maior parte dos seus trabalhos?

 

EL: Como uma semente que se lança na terra, para no futuro gerar uma árvore,  também o gosto pelos livros tem que ser cultivado desde tenra idade.

Desde bebé que este objecto deve fazer parte dos “brinquedos” da criança.

Se estimulada na infância, a leitura vira um hábito para a vida.

Conto diariamente histórias aos meus grupos de creche… 1 e 2 anos.

As histórias são ferramentas essenciais para a construção da identidade e dos valores da criança.

Através das histórias a criança desenvolve o raciocínio e aumenta a capacidade de compreensão do Mundo , enriquecendo o vocabulário e facilitando a sua capacidade para se expressar.

Estimula a imaginação e a criatividade e fortalece o laço afectivo entre adulto e criança.

Ao nível emocional, as histórias permitem á criança,  reconhecer, entender, consciencializar e expressar de forma assertiva as suas emoções e sentimento.

Com os mais velhos cria-se uma relação de empatia com as personagens da narrativa o que permite à criança vivenciar indiretamente os conflitos e a resolução dos mesmos, vividas pelas personagens.

Até aos 3 anos devemos contar histórias simples, de ritmo lento, utilizando expressões conhecidas pelas crianças e aproveitar para introduzir novas palavras e conceitos.

Ao contar uma história é também muito importante a comunicação não-verbal podendo enriquece-la, com expressões, sons, gestos e pequenas teatralizações envolvendo mais a criança na história e aumentando o seu interesse.

No entanto, o meu trabalho de escrita está mais vocacionado para crianças em idade pré-escolar… dos 3 aos 6 anos. Idade em que as crianças se demonstram mais curiosas, atentas e interessadas em perceber o porquê das coisas.

Mas faz tudo parte de um processo… é preciso, semear… para se poder colher os frutos…

 

AMMA: É fácil criar um contexto lúdico e educativo em simultâneo ou é um duplo desafio para si?

 

EL: Digamos que não me é difícil fazê-lo,  tendo em conta que já se tornou um hábito… sempre que quero trabalhar um tema e não encontro nada que satisfaça as minhas necessidades, eu crio…

E a minha profissão exige que seja criativa por forma a fazer chegar, mais facilmente a mensagem, às crianças com quem trabalho.

 

AMMA: O que a motivou a escolher este tema para o seu primeiro livro?

 

EL: Sendo este um tema de importância fulcral, na nossa sociedade e transversal entre as diversas gerações, pareceu-me oportuno abordá-lo neste pequeno livro criado para crianças, de forma leve e divertida e permitindo a pais e educadores desenvolver nestas, a responsabilidade de preservar e cuidar deste recurso natural, cada vez mais escasso e de importância fundamental, para a preservação da vida no nosso planeta.

Para entendermos até que ponto a água é preciosa, basta dizer que 96,54% da que existe no planeta é salina, portanto, imprópria para consumo humano ou para a agricultura. Dois terços da fatia restante está nos pólos, na forma de gelo, portanto, também inacessível. Na realidade, apenas 1% da água total da Terra é utilizável pelos humanos.

É por isso, de extrema importância sensibilizar o público para uma mudança de comportamentos no modo de consumo da água e para um uso eficiente deste bem, contribuindo assim para uma maior sustentabilidade hídrica.

O Dia Mundial da Água, comemorado no dia 22 de Março surgiu com o objetivo de criar medidas para a preservação da água e sensibilização em relação a este recurso natural , a nossa Gotinha chega com o objectivo de sensibilizar os mais novos para a preservação do ambiente e promover uma utilização sustentável da água, ao mesmo tempo que expõe de forma alegre e divertida, o seu Ciclo.

 

 

AMMA: É preciso ter uma grande cumplicidade e sincronização com a ilustradora, neste caso a Tatiana Dolgova? Vocês já se conheciam antes deste projecto?

 

EL: Para falar verdade… ainda não conheci pessoalmente a ilustradora do meu livro, pois este projecto iniciou em plena pandemia, no decorrer do 2º confinamento geral… tendo sido a comunicação, sempre feita por meio digital.

Foram-me enviados diversos trabalhos de diferentes ilustradores, pela editora, e a Tatiana Dolgova destacou-se pelas suas ilustrações coloridas e mais próximas da realidade que era o que pretendia tendo em conta a faixa etária a que se destina o meu livro.

Assim sendo, dei as minhas ideias e a Tatiana conseguiu torná-las ainda melhores do que tinha imaginado.

Superou as expectativas e sem dúvida que quero conhecê-la pessoalmente.

 

AMMA: Teve o incentivo da sua mãe e o apoio da editora em lançar esta obra para crianças. No geral qual é a maior dificuldade que os escritores têm para colocar um livro no mercado?

 

EL: Na realidade não há grande espaço para novos autores… e os que tal como eu perdem o medo e avançam, necessitam ter coragem e alguma capacidade financeira para arriscar, pois foi necessário algum investimento da minha parte para avançar com a publicação.

O mercado editorial, foca-se nos grandes nomes… aqueles que lhes dão lucro garantido, cujo nome, só por si já vende…e eu compreendo, porque infelizmente existem cada vez menos leitores e as editoras precisam de apostar em quem lhes permite e lhes garante manter as portas abertas…

Mas por outro lado acaba por não se dar a mão a novos talentos.

No entanto, sou grata á flamingo edições que após ter recebido este original, decidiu embarcar comigo nesta aventura.

E aqui estamos nós.

 

AMMA: O que espera que se faça em Portugal para que os escritores consigam mais agilidade para poderem criar e comercializar os seus trabalhos?

 

EL: Que exista um maior apoio governamental, à cultura,  de forma a permitir às editoras lançar novos autores e abraçar novos projectos, que de outra forma, nunca sairão da gaveta…

E por vezes perdem-se enormes talentos, por falta de investimento nesta área.

 

AMMA: Tendo uma componente artística multidisciplinar, já pensou num futuro próximo, editar um disco com canções suas com os seus alunos?

 

EL: Pensar já pensei… até porque cantar é outra das minhas grandes paixões. Aliás a titulo de curiosidade cheguei a fazer festas de final de ano lectivo, com canções escritas e cantadas por mim (risos), os educadores o que não têm… inventam.

Mas esses são caminhos que ainda não explorei… nem investiguei formas de lá chegar…

Já foi uma grande loucura dar este primeiro passo… mas quem sabe… se surgir a oportunidade… aqui estarei para a agarrar.

 

AMMA: Que mensagem tem a deixar aqui aos nossos leitores, tanto para os adultos, como a que quer que transmitam aos seus pequenos?

 

EL: Que nunca desistam de correr atrás dos vossos sonhos…

Há uns anos li uma frase de Shakespeare que dizia o seguinte:

 “Se os sonhos estão nas nuvens… Eles estão no lugar certo, agora construa os alicerces!”

 

E para terminar deixo aqui um pequeno poema da minha autoria, que vai ao encontro da mensagem que quero deixar a miúdos e graúdos…

 

O sonho comanda a vida,

já dizia o poeta,

e é sonhando que se avança,

até se alcançar a meta.

 

Luta pelo que acreditas,

segue em frente, sem receio,

Não desistas dos teus sonhos,

Eles não são um devaneio.

 

Sonhos tornam-se reais,

é preciso acreditar,

por isso apenas te digo,

Nunca deixes de sonhar!

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: (cedidas pela autora)

 

 

Hamlet de W. Shakespeare, TEC, Escola Prof. de Teatro de Cascais em tempo de pandemia, com Carlos Avilez

 

Hoje vamos ao Teatro. Não para assistir à peça em si, mas sim a um dos seus ensaios, e ainda falar com Carlos Avilez encenador do Teatro Experimental de Cascais (TEC) e director da Escola Profissional de Teatro de Cascais, sobre o teatro e o seu ensino em tempos de pandemia.

 

Em 2020 o TEC abriu as portas ao público a 15 de Maio, com a continuação da exposição “9+2” no seu Espaço Memória assinalando os 150 anos do Teatro Gil Vicente, local onde nasceu o TEC, onde levaram a cena as suas peças durante 9 anos consecutivos, e após um interregno a companhia voltou a este palco por mais dois anos, daí o nome da exposição ser “9+2”. Conseguiu-se a reabertura desta exposição com todo este espólio documental após o levantamento do confinamento geral, com as medidas propostas pela DGS para ter as portas abertas ao público com a devida segurança.

 

A primeira peça a ser levada ao palco do Teatro Mirita Casimiro pela companhia foi Bruscamente no Verão passado”, de Tennessee Williams. Foi um desafio pós-confinamento sendo uma experiência pela qual nenhum dos intervenientes tinha passado até ao momento. Com esta 165ª peça a ser apresentada ao público pelo TEC, entre 10 de Julho e 2 de Agosto, ainda teve uma componente solidária, a receita de uma das suas sessões reverteu totalmente para a Refood Cascais, o Teatro solidário com os que mais necessitam.

 

Como estamos em tempo de crise pandémica o teatro reinventou-se e em menos de um mês Carlos Avilez tem mais uma peça em palco, mas num formato ao ar livre, o “Caminho Real”, também de Tennessee Williams em cena de 7 a 20 de Agosto, no Anfiteatro do Parque Marechal Carmona em Cascais. Como tem sido habitual no final do ano lectivo, alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais fazem parte do elenco. Nesta peça participaram 40 alunos dos quais 33 são finalistas.

 

O ano não acabou aqui, o TEC ainda levou a palco YERMA de Federico García Lorca, com a estreia a 13 de Novembro e em cena até 13 de Dezembro, mas com a conjuntura de confinamento obrigatório ao fim-de-semana as suas sessões acabaram por ser reajustadas à nova realidade.

 

YERMA, para além do elenco fixo da companhia e com mais actores que têm feito parte da história do TEC ao longo dos últimos anos como Renato Godinho, Rita Calçada Bastos e Rodrigo Tomás, foi protagonizada por Sara Matos, que também começou a sua carreira passando pela Escola Profissional de Teatro de Cascais.

 

Já para este ano, o arranque das actividades do TEC com o público dá-se com HAMLET, de William Shakespeare a 21 de Abril. Tendo a tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen, dramaturgia de Fernando Moser e colaboração dramatúrgica de Miguel Graça, conta com a encenação já característica de Carlos Avilez.

 

O seu elenco é composto por actores como Bárbara Branco, Diogo Martins, José Condessa (em Hamlet) e Maria João Pinheiro, que se juntam a Elmano Sancho, Flávio Gil, João Gaspar, João Pecegueiro, Luiz Rizo, Miguel Amorim, Miguel Loureiro, Renato Pinto, Rodrigo Cachucho, Sérgio Silva e Teresa Côrte-Real. Embora com uma lotação reduzida a 48 lugares sentados, segundo as orientações das autoridades sanitárias, o TEC leva a peça para a frente para o seu público.

 

Tivemos a oportunidade de ter uma agradável conversa com Carlos Avilez em que o  tema base é o Teatro em tempo de pandemia, tanto no TEC como na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Vamos ver o que ele tem para nos dizer.

 

 

AMMA: Como encenador, o que é para si fazer teatro em tempos de pandemia?

 

Carlos Avilez: É horrível… por todas as razões claro. Para já por ser uma situação de não poder ter contacto, o teatro é uma coisa de contacto, nós estamos próximos uns dos outros. É um problema de ternura… e depois é um problema de tudo o que influencia. É evidente que uma pessoa que está em casa dois meses, quando volta, volta com muitos problemas de mobilidade inclusivamente, de depressão, de estar a dar um espectáculo e ter que parar e pior que isso, eu até ontem não sabia se havia ou não a estreia na 4ª Feira. Por exemplo no ano passado para fazer “Bruscamente no Verão passado” estive sete meses à espera de estrear e agora estava nessa espectativa de estreia ou não estreia, como é que se faz… é horrível… ensaiarmos de máscara e não nos podermos tocar, tudo isso…

 

AMMA: Os vossos ensaios foram reinventados com a utilização dos equipamentos de protecção. Foi complicado derivado à dinâmica que têm em palco?

 

CA: Foi complicado. Eu tenho a sorte de ter um extraordinário elenco. Tenho grandes actores que estão habituados a dominar as situações mais terríveis e mais complexas, mas para isto nós não estávamos preparados, não sabíamos, é uma coisa que nós desconhecíamos,  eu não sabia como me haveria de defender disto, como é que se defende de uma coisa destas. Fui surpreendido… faço 65 anos de carreira e nunca me tinha deparado com uma situação destas. Deparei-me com subsídios e com muita coisa agora com isto não, porque o inimigo é invisível.

 

AMMA: Após o primeiro confinamento no ano passado, abriu o ano do TEC com “Bruscamente no Verão passado”, de Tennessee Williams. A escolha dessa peça foi estratégica?

 

CA: Não. Uma programação é feita à distância, por exemplo esta peça que eu estou agora a fazer já estava a planear há mais de um ano. Eu fiz o Hamlet em 1983 e não pensava voltar a fazer por várias razões, inclusivamente as afectivas, o desafio, a grande peça, o grande momento, eu fiz e estou a fazer o Hamlet.

 

AMMA: Compensa abrir as portas da sala com as restrições de limite de público determinado pelas autoridades? Que futuro prevê para o teatro em Portugal enquanto durar a pandemia?

 

CA: Sabe, nem que seja para um espectador… nós representamos para o público e temos que ter público, é impossível não ter público… o nosso trabalho é para o público e uma relação com o público. É preciso que vejam o nosso trabalho. O cinema e a televisão tudo isso fica, o teatro não fica. É uma coisa que não fica. As pessoas sabem que existiram determinados espectáculos mas não vêm não sabem como eram. Ouvi falar da Ângela Pinto, mas nunca vi. Vi no cinema mas é diferente. Eu já atravessei muitas lutas, eu e os meus colegas todos e o teatro sobreviveu: à rádio, à televisão, ao cinema e agora o problema é sobreviver à pandemia.

 

AMMA: Como estão as companhias de teatro a sobreviver nestes moldes?

 

CA: Nas piores condições… as piores condições em que fiz um espectáculo desta dimensão foi exactamente o Hamlet actualmente.

 

AMMA: A segunda peça do TEC em menos de um mês, no ano passado, em espaço ao ar livre e com alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais, teve um motivo especial? Fez parte de uma experiência, ou foi idealizada dessa forma logo desde o início?

 

CA: Foi feito ao ar livre porque não podíamos fazer no Teatro. Era uma peça que estava prevista e adaptamos ao exterior, resultou bem. O Tennessee não é propriamente para exterior, mas aquela peça sim pode ser feita. Tive que me adaptar.

 

AMMA: Sobre a Escola Profissional de Teatro de Cascais, como se tem conseguido ensinar e aprender nestes tempos conturbados?

 

CA: Eu aprendo todos os dias e ensino todos os dias. Sabe, nós ao fim de uns anos temos uma experiência muito grande. Eu trabalhei com grandes nomes e tenho a obrigação de passar essa mensagem, mas também as coisas mudaram e o que realmente. Esta gente nova é uma geração completamente diferente, e a geração depois da pandemia é outra e eu aprendo com eles também e tenho uma relação muito forte com os meus alunos e essa é uma das razões também que me faz estar activo.

 

AMMA: Mesmo no teatro que é uma arte muito prática, chegou-se a fazer ensino à distância nas aulas teóricas?

 

CA: Mas eu não sei fazer… eu fui quase obrigado a fazer mas o teatro não é para ser feito online. É para ser feito ao vivo, mas é evidente que tinha que acompanhar os alunos mas senti-me um bocado frustrado porque não estava a ensinar nada. Estava a acompanhar as pessoas, estava a dizer as coisas, mas aquela experiência que eu tinha e queria passar, e que se vai ressentir evidentemente porque os alunos que tiveram as aulas de Teatro online não têm a preparação dos outros e espero que recuperem quando tudo isto acabar, mas não me sentia bem e fui sempre contra isso. Tive que me sujeitar porque senão não tinha contacto com os alunos.

 

AMMA: Como está o estado de espírito tanto da equipa de professores como dos alunos com estes impasses?

 

CA: À espera… à espera.

 

AMMA: Em média quanto tempo necessita para por uma peça deste género em palco? Contando com os ensaios, cenários, guarda-roupa, luzes e toda a envolvente necessária à produção da peça?

 

CA: Acho que para ter esta peça, tem que se pensar que o tempo é uma vida… (risos). Comecei a ensaiar em Janeiro e demorou cerca de três meses, mas é uma vida… não se aprende o Hamlet em três meses ou quatro, é uma vida de experiência. 

 

AMMA: Já tem idealizada a peça que pretende levar a palco com os alunos finalistas da Escola de Teatro deste ano?

 

CA: Sim, já. “Os gigantes da montanha”  de Pirandello.

 

AMMA: Uma palavra final para os nossos leitores sobre o teatro e a cultura em tempo de pandemia.

 

CA: Estejam connosco, que nós estamos com eles.

 

Texto e Fotos: Pedro MF Mestre

 

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Ricardo Mello, paixão e talento no DJ’ing e no Design

 

 

Ricardo Mello é um jovem grande talento tanto na arte de DJ, produtor de música eletrónica em Portugal e ainda na sua dedicação ao design.

 

Nascido em 1984, Ricardo aspira ao sucesso musical logo aos sete anos de idade iniciando-se no piano e na percussão, sendo que foram o motor para chegar ao DJ’ing com o sucesso que tem atualmente na sua vocação musical.

 

O que pretende quando está na sua mesa de som e com todo o equipamento associado é ver o impacto que a sua música está a ter no público presente na pista, ou seja agitar-lhes o sangue  proporcionando um bom momento de dança, divertimento e descompressão. O seu estilo baseia-se no deep house, house vocalizado, eletrónica e mainstream. Os DJ’s que o influenciaram ao longo de duas décadas passaram por David Guetta, Daft Punk, Deadmau5, Bob Sinclar, Martin Solveig entre outros, sendo estes os mais marcantes.

 

Na sua carreira de animação musical ao longo destes anos partilhou espaços com os mais famosos nomes da música de pista como David Guetta, Axwell, Steve Angelo, Miguel Miggs, Dj Vibe, Diego Miranda, Chus & Ceballos, Bob Sinclair, David Moralles, Martin Solveig, Edward Maya, Ives Larock, Dimitri From Paris, entre outros.

 

Os primeiros passos foram dados na então discoteca Coconuts em Cascais, uma das mais emblemáticas da altura na linha, onde trabalhou durante vários anos.

 

Não se contenta com o passar música para uma pista de dança e ter o retorno da animação dos clientes do espaço. Aposta também na fundação da “Emmo Records”, e aderiram a este projeto no território da dança, artistas como o DJ Vibe, Kobbe, Cytric, Carlos Frauvelle, Richie Santana, Milton Channels, Kobbe, Eric Entrena, Dário Nunez, Tarot, Sérgio Fernandes, London 909, e outros.

 

Em 2005 Ricardo Mello lança-se no mercado de produção internacional trabalhando com vários artistas e produtoras de vários países, assim como o lançamento do tema “Tribal Dream” em colaboração com vários artistas de renome, tendo sido a alavanca principal para o este seu lançamento internacional. Assim este DJ cria um portefólio de temas originais e outros remixados que foram bem recebidos e reconhecidos nos mercados estrangeiros. O destaque vai para o seu tema original “Tears” com a editora Canadiana Readymix Records, assim como também o tema em remix “If you like”, um original de Mickiyagi feat Orly Weinerman, com a norte americana Soundgroove Records.

 

Ricardo trabalhou como DJ oficinal para a revista Portugalnight Mag entre 2008 e 2011, para tal foi percorrendo os melhores clubes nacionais e estrangeiros, passando pela Suíça, Espanha, Andorra e o Brasil.

 

O ano de 2009 fica marcado pela sua animação musical na prestigiada discoteca Kapital em Lisboa, e dois anos mais tarde assina como DJ residente no Guilty no espaço do Chef Olivier. Estas são duas das suas grandes presenças nos espaços de diversão noturna da capital portuguesa.

 

Em 2012 e durante três anos Ricardo Mello esteve como DJ residente na prestigiada Kadoc, uma das mais mediáticas discotecas nacionais por onde passaram muitos dos maiores nomes das diversas partes do mundo da música eletrónica para as pistas de dança.

 

O artista esteve durante vários anos como Dj Residente do conceituado espaço noturno “Lust in Rio”, e continua a atuar frequentemente em alguns conceituados clubes a nível nacional.

 

Um dos projetos mais recentes de Ricardo Mello consiste no lançamento de vários temas em parceria com o maior nome do DJ’ ing português, o Diego Miranda. Neste momento estão a desenvolver um novo tema, dando a continuidade ao projeto.

 

O tema também recente “Could This Be Love” foi feito em colaboração com artistas do Reino Unido, os m4dc4t e a Kerry Reeve, assim como a Norte Americana Marika Takeuchi. O êxito que alcançou já leva a mais de 350.000 Streams no Spotify assim como o interesse de mais de 20 rádios a nível mundial de difundir esta música.

 

A pandemia determina o fecho de muitas atividades em todo o país, sendo que os espaços de diversão noturna foi uma das áreas mais afetadas em termos de tempo de encerramento. Num ano não abriram portas para o público uma única noite.

 

Aqui proprietários, artistas, barmen’s, seguranças e todos os intervenientes no bom funcionamento destes espaços, tendo a sua atividade parada tiveram que se reinventar num mercado onde o desemprego domina. Alguns com sucesso, outros não.

 

Ricardo Mello tem a capacidade de se reinventar e dar cartas noutras atividades em que teve formação como o design, e também o colecionismo.

 

Vamos conhecer melhor este artista.

 

 

AMMA: Ricardo começa com 7 anos a perceber que é a música que vai dominar a sua profissão e o estilo de vida. Foi fácil conseguir ter aulas de piano e percussão, ou entrou muito pelo mundo autodidata?

 

Ricardo Mello: Eu logo cedo, felizmente, tive acesso a vários instrumentos lá por casa. O meu Pai tocava Saxofone na banda da Policia e dava uns toques no piano e assim desde logo cedo comecei a sentir que a música fazia parte de mim e iria fazer parte da minha vida.

 

AMMA: Que recordações tem da primeira vez que assume uma mesa de mistura para pôr uma pista a dançar?

 

RM: Tenho uma história engraçada. Retrocedendo ao ano de 2001, era eu copeiro na mítica Coconuts em Cascais, quando o DJ residente na altura faltou motivo de doença. Salvei a noite e assumi desde dia em diante a residência da discoteca.

 

AMMA: É fácil de perceber qual é o tema que o seu público quer ouvir de seguida? Isso sente-se?

 

RM: Não é fácil, senão qualquer um seria Dj. Existe por ai muito curioso que basicamente o que faz é passar as playlists da rádio da moda. O caminho não é esse. Temos que sentir o que as pessoas querem ouvir e isso ganha-se com o passar dos anos, a experiência.

 

 

AMMA: O mercado do DJ’ing e da música eletrónica, antes da pandemia, era devidamente valorizado como arte, ou ainda havia algumas arestas a limar?

 

RM: O mercado do Djing  já não é valorizado em Portugal há vários anos. Na minha opinião derivado às modas dos djs vindos dos Reality Shows e dos cursos ao empurrão que na última década explodiram no nosso país banalizando, e assumo, quase destruindo a profissão. Felizmente as atuações e o tempo encarregam-se de contar a verdade e fazer sobressair aqueles que realmente trabalham e amam a profissão.

 

AMMA: Tendo em conta que o seu estilo baseia-se no deep house, house vocalizado, eletrónica e mainstream e teve como influência os maiores DJ’s da atualidade. Tudo isto reflete-se no sucesso da sua carreira? É este o tipo de som que o público mais escolhe para as mais conceituadas pistas de dança em Portugal?

 

RM: Eu venho da escola de sonoridades mais duras, mas cedo percebi que a minha essência vinha do tribal e ritmos quentes, onde as boas batidas prevalecem. (risos) Se tiver um vocal a assentar bem, então temos malha!

 

AMMA: Reinventar-se, inovar, cunhando a sua marca pessoal no seu trabalho, foi algo que demorou a ser reconhecido ou conquistou com agilidade este mercado?

 

RM: Desde muito cedo sou também produtor de música, sendo esse um dos grandes impulsionadores do meu nome na música à parte dos longos anos de Dj Residente em grandes clubes por esse Portugal fora.

 

AMMA: Trabalhar com os nomes mais conhecidos do público internacional, para além de serem experiências únicas aprende-se muito com eles?

 

RM: É verdade, tive oportunidade de partilhar a cabine com muitos dos grandes nomes a nível mundial. Como eu costumo dizer, de cada gig, trouxe comigo um pouco deles.

 

AMMA: Tem algum episódio engraçado que queira partilhar sobre uma dessas prestações em parceria com DJ’s internacionais?

 

RM: Tenho varias, mas um dos episódios mais engraçados que vivi mesmo foi na Kadoc quando partilhei a cabine com o Bob Sinclar, uma das minhas referências e acabei a tocar umas musicas com ele no final da noite.

 

AMMA: Gravar nos EUA e Canadá passaram pela sua carreira. Esses países são mais acessíveis para a produção deste estilo de música do que Portugal?

 

RM: Foram oportunidades aproveitadas. A Readymix foi um dos meus primeiros lançamentos internacionais, seguiu-se a Soundgroove Records dos Nova Iorquinos Midnight Society e mais recentemente uma colaboração que quase que dá a volta ao mundo. 

 

 

AMMA: Com a globalização dos meios digitais, é mais fácil ou mais difícil ser-se DJ? Há mais facilidade de trabalhar em parceria com outros nomes internacionais através das plataformas de música digitais?

 

RM: Sim e vêm de encontro à  pergunta anterior a esta resposta. Hoje em dia tornou-se fácil colaborar com artistas de todo o mundo. As redes sociais vieram unir a música, as culturas, o mundo. Infelizmente nem tudo são vantagens, mas há que aproveitar e adaptarmo-nos às tendências do futuro.

 

 

AMMA: Das discotecas nacionais por onde passou a sua música, começando no mítico Coconuts em Cascais até aos mais recentes clubes de diversão nucturna, como o “Lust In Rio”, a Kadoc, Kapital, Bosq, Rádio-Hotel, entre outros, tem que adaptar o seu som a cada casa, ou o público contagia-se com o seu estilo pessoal?

 

RM: Cada uma dessas casas têm o seu estilo próprio. Na Kadoc era tudo bem mais fácil, bastava tocar algo com uma batida mais forte e uma vozinha lá no meio que a malta dançava. Em clubes de grandes dimensões, assim como em festivais é sempre tudo mais simples, sendo mais fácil de agradar às massas. Em clubes mais pequenos tudo é diferente e se não soubermos educar o nosso público, temos que nos render às tendências ou arriscamo-nos a “vazar” a pista.

 

AMMA: Um facto curioso na sua carreira foi entre 2008 e 2011 a colaboração com a revista Portugalnight Mag, o que o obrigou a deslocações e prestações musicais no estrangeiro. Como é trabalhar fora de Portugal? É muito diferente na vossa arte?

 

RM: Não foi só com a Portugalnight Mag que viajei até ao estrangeiro, mas é verdade que eles foram uns dos grandes impulsionadores  da minha carreira, levando-me em tours, até alguns países da Europa ou até às duas edições da Sensation White realizadas em Portugal.

 

AMMA: Estamos em tempo de pandemia há um ano. Os espaços de diversão noturna estão completamente fechados ao público desde essa altura. Alguns ainda passaram música exclusivamente na Internet para tentar animar os seus clientes confinados no primeiro estado de emergência do ano 2020. Alguns profissionais readaptaram-se, outros não conseguiram. Conhece muitos colegas seus que estejam em graves dificuldades? Desde DJ’s, proprietários e restante staff?

 

RM: Infelizmente tenho muitos amigos e conhecidos a passar mal. Fico triste só de pensar. Segue daqui um abraço de força para eles esperando melhores dias.

 

AMMA: Como DJ, e falando do seu caso pessoal, quais as maiores “dores” que sente pelo facto da pandemia ter surgido, parando a atividade presencial? Este sector tem tido apoio de alguém?

 

RM: No meu caso pessoal e numa altura onde rodava por algumas das casas mais badaladas da capital e do país, foi como se de um balde de gelo se tratasse. Sinto que todos aqueles anos que dediquei a esta causa, parem deitados ao lixo. Lembro-me que por vezes quando ia tocar a clubes mais pequenos e familiares, que dizia que não sentia a mesma coisa. Hoje são esses clubes que tanta falta me fazem. Fez um ano que deixei de fazer o que mais gosto.

 

AMMA: Tem esperança de um dia voltarmos a ficar com tudo bem como antes? Já sonha com o regresso?

 

RM: O meu regresso esta para breve, esperemos. Já tenho algumas coisas marcadas para este ano, entre eles um festival, mas é tudo uma incógnita ainda. Esperemos por melhores dias.

 

AMMA: Relativamente às conquistas que teve ao longo destes anos que balanço faz da sua carreira de DJ?

 

RM: Bem... Tendo em conta que fui um dos primeiros DJ/Produtores a ter o seu próprio selo editando os maiores artistas do mundo, já ter passado um pouco por todo o lado e ter muitas historias bonitas nas malas, considero-me uma pessoa de sorte. É claro que nunca estamos satisfeitos, mas tenho noção que atingi um patamar onde não é fácil chegar.

 

AMMA: Curiosamente o Ricardo não deixa a música de parte, continua a desenvolver em parceria com o grande nome da industria musical de pista Diego Miranda, mas também reinventou-se. Antes de irmos ao design, retoma o colecionismo. Como surge isso? Já era algo que queria fazer desde muito jovem e agora foi o momento certo? Qual foi o tema central do seu colecionismo?

 

RM: Sim, lancei recentemente um tema EDM com o Diego e temos outro quase pronto para sair, desta vez algo mais melódico e quente que estou ansioso que todos oiçam. Sim, desde muito novo sempre adorei Super-heróis, preferencialmente a Marvel Comics. Com o nascimento dos meus sobrinhos a paixão cresceu e há cerca de 4 anos comecei a comprar tudo o que encontrava. Dou por mim com a casa estilo museu (risos).

 

 

AMMA: Além do colecionismo o Ricardo Mello é também designer. Em paralelo com o DJ’ ing também se formou em design?

 

RM: Sim tenho vários cursos e formações de Design e Multimédia, entre outros. Como eu costumo dizer, o saber não ocupa lugar e dá jeito.


AMMA: As artes gráficas também eram uma paixão antiga?

 

RM: Sim desde sempre. Estudei artes e sempre adorei jogos, fotografia e multimédia. Sempre tentei acompanhar as tendências, o que me trouxe uma grande bagagem e me tem catapultado para alguns lugares interessantes a nível profissional.

 

AMMA: Derivado a esta situação que temo vindo a abordar, foi um mudar de agulhas no mercado de trabalho? Em que tipo de grandes projetos tem estado envolvido?

 

RM: Neste momento colaboro com a Estoril Praia Sad como designer e integro também as mesmas funções no Grupo Global Context. A par de tudo isto sou também Label Manager da Less is More Records, uma das mais conceituadas editoras de música de dança portuguesas.

 

 

AMMA: De regresso ao tema da música, mantém ativo o seu perfil no Spotify com o seu nome “Ricardo Mello” (os nossos leitores poderão desfrutar do seu som neste espaço), com milhares de audições mensais, acha que pode ser um motor para partilhar momentos musicais em pandemia? Os temas que tem disponíveis estão todos de livre acesso, ou tem alguns pagos? Qual a sua perceção das plataformas de som digitais para os artistas transversalmente à área musical que tenham?

 

RM: Sim cada vez mais as plataformas da música de dança e ainda por mais numa altura como esta,  são a catapulta para os artistas e neste caso o Spotify e o Beatport têm sido dois grandes aliados. Neste momento tenho o meu mais recente tema a “Could This Be Love” que leva já mais de 350.000 Streams e que roda em mais de 20 rádios por todo o mundo. Esta a correr bem.

 

AMMA: Tem alguma palavra que queira deixar aos seus colegas do mercado da diversão noturna que estão neste momento parados?

 

RM: O que desejo a todos é que tenham força, fé e coragem... Não sei se alguma vez mais voltaremos a ter o que tínhamos. Sei que não estamos perto, mas já tivemos mais longe de voltar a estar juntos. Não desmotivem, reinventem-se... Numa altura como esta o pior que podemos fazer é desmotivar. Há tantas outras coisas que podemos fazer sem deixar de parte este nosso mundo. Força!!!

 

AMMA: Uma palavra aos nossos leitores, principalmente aos mais novos, sobre a atividade de DJ, o que podem fazer para seguir em frente com os seus projetos no pós-pandemia, e como lidar com as dificuldades que o mercado possa ter sem nunca desistirem?

 

RM: Em primeiro lugar quero agradecer à AMMA Magazine esta oportunidade. A todos os leitores o que desejo é que nunca desistam dos vossos sonhos. A vida passa depressa, acreditem e lutem por aquilo que mais desejam. Sejam felizes, acreditem em vocês. Todo o novo dia é uma nova oportunidade. Obrigado!

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: Rui Loureiro e Arquivo de Ricardo Mello

 

 

João Serra Fernandes: músico, produtor e director musical

 

 

João Serra Fernandes, actualmente dedicado à produção e direcção musical, tem um vasto percurso iniciado em 1991 ainda como amador em Sintra no antigo “Tópico”.

 

Já em 1993 decide estudar música na “Academia Acorde Comigo”, onde passou por professores como Mário Delgado, Luis Moreno, António Pinto. Mais tarde tem aulas particulares com Pedro Madaleno.

 

A estreia nos palcos decorre por volta de 1995 no mítico “Trovadores” onde a sua presença se torna habitual e onde tem a oportunidade de se cruzar e tocar com grandes nomes da música portuguesa, como Rui Veloso, José Salgueiro (Trovante), Sebastião Antunes (Quadrilha), Nuno Flores (Corvos/Quinta do Bill), Fernando Pereira (Romanças/Real Companhia), Mafalda Arnauth entre muitos outros.

 

Mais tarde integra diversas bandas que tocam em bares, maioritariamente na zona de Sintra, Cascais e Lisboa. Isto entre 1995 e 2002.

 

Em 2004 a sua carreira dá mais uma volta com o novo desafio de produzirespectáculos e eventos, e em paralelo com mais uma arte, a fotografia, largando temporariamente os palcos, dedicando o seu trabalho a estas duas áreas.

 

O ano de 2008 torna-se especial por voltar a pisar os palcos com a sua performance artística musical, na qualidade de músico convidado por algumas bandas tanto em bares como em eventos.

 

A fotografia profissional fica de parte em 2011, ficando com o seu trabalho dedicado na totalidade à área musical, tanto como músico, como produtor. Aqui nasce a a UpMusic Talents, empresa de produção, agenciamento e aluguer de backline , na qual desempenha as funções de Director Artístico e Director de Produção. Nesta altura, tem a oportunidade de trabalhar com grandes nomes da música nacional e internacional como Jorge Palma, Mico da Câmara Pereira, Daryl Struermer (Phil Collins/Genesis), Steve Hackett (Genesis), Chen Liony (cantora israelita), Liza Veiga, Pedro Madaleno, The Lucky Duckies, Denny Newman, Caroline Dawson, Rui Drumond, Lara Afonso, entre muitos outros...

 

 

Actualmente, em palco assume a função de guitarrista nos projectos “Depeche 101 - Tributo a Depeche Mode”, “Taboo Blues Band”, “Max Costa & The Big Fat Blues”

 

 

e “Madrediva”, sendo que nestes dois últimos é também director musical. Paralelamente, trabalha em estúdio como músico de sessão e produtor musical para alguns artistas.

 

Gere ainda, no youtube, o  Canal Johnny Guitar onde faz entrevistas na rúbrica Brainstorm. Este canal completamente dedicado à música, conta ainda com aulas de guitarra dadas pelo próprio artista, interpretação de covers instrumentais, directos com outros artistas assim como vídeos abordando outros temas.

 

Vamos conversar com João Serra Fernandes.

 

AMMA: Antes de se iniciar na música em 1991, já tinha tido esse desejo anteriormente?

 

João Serra Fernandes:

O meu pai era músico, fez parte de uma das míticas bandas portuguesas dos anos 60. Apesar de nunca o ter visto actuar, porque cedo trocou os palcos por “um emprego estável”, cresci a admirar as fotos dele em palco e com uma guitarra lá em casa pendurada na parede da sala, que sempre me intrigou. Obviamente, que logo desde muito cedo quis agarrar naquela guitarra e subir a um palco, como o meu pai.

 

AMMA: Quais foram as bandas e artistas de influência ao longo da sua vida?

 

JSF: Essa não é uma pergunta de resposta fácil para mim… Em diferentes fases da minha vida, tive diferentes influências musicais, mas posso destacar os que se mantiveram até aos dias de hoje. Chet Atkins, David Gilmour, Mark Knopfler, Gary Moore, Brian May, Angus Young, Steve Vai, Satriani, e mais outros tantos…

 

AMMA: Em 1993 quando decide entrar na escola de música, já tinha em mente um estilo que queria seguir, ou teve influência dos professores?

 

JSF: De todo… Aliás, nunca me colei a um único estilo, tanto que estou envolvido em projectos de blues, rock, electrónica e música tradicional portuguesa.

Na escola, tive a oportunidade de abordar e estudar vários estilos, com maior incidência no jazz, no blues e no rock. O contacto com os professores e com outros alunos, fez o resto.

 

AMMA: Como se deu o início à sua carreira profissional em palcos com os grandes músicos portugueses? De início ficou nervoso, estava tranquilo?

 

JSF: Devia ter uns 16/17 anos. Por brincadeira comecei a tocar nos Trovadores e o Fernando (dono) começou a pagar-me um pequeno cachet para o acompanhar (acho que às terças feiras), daí até me cruzar por lá com músicos dos Trovante, Quinta do Bill, Quadrilha, com o próprio Rui Veloso, entre muitos outros, foi um pequeno passo.

 

AMMA: Com qual deles teve mais presenças? Correram várias salas de espectáculos em Portugal, chegaram a fazer espectáculos no estrangeiro?

 

JSF: Portugal é um país pequeno e facilmente corremos as salas mais importantes com um artista.  Este ano, por exemplo, estava preparada uma mini tour em Itália e no Brasil, com Max Costa & the Big Fat Blues que entretanto foi adiada, pelas razões que todos conhecemos.

 

AMMA: Quando se dedica à produção de espectáculos e à fotografia, deixa os palcos. Foi uma mudança significativa na sua actividade. Como era dividido o seu tempo por duas tarefas completamente diferentes ligadas à actividade musical?

 

JSF: Ambas as actividades muitas vezes acabavam por se complementar. A fotografia, tendo formação na área de fotografia de espetáculo, para mim era uma mais valia e mais um serviço que a empresa fornecia.

 

 

AMMA: Como nasceu a UpMusic Talents? Os primeiros passos ainda foram complicados, ou já tinha bases sólidas para levar o projecto em frente?

 

JSF: A UpMusic Talents, nasce ainda sob o nome de Upstage Produções. Nunca é fácil arrancar com um projecto destes “a solo”, mas ao fim de anos a trabalhar na estrada para terceiros, senti que era o passo natural a dar.

 

AMMA: Mesmo com as funções de Director Artístico e Director de Produção da UpMusic Talents continua a pisar palcos com diversos nomes da música portuguesa e mesmo internacional. Que projectos mais interessantes lhe surgiram nesta época?

 

JSF: Sem dúvida que terei que destacar a artista israelita Chen Liony. Apesar de ter estado mais focado na produção do álbum dela e só mais tarde actuarmos juntos, foi um verdadeiro desafio. Não só porque tive a oportunidade de trabalhar com o Jorge Palma, para mim um dos génios da música em Portugal, e porque a cultura israelita é uma cultura muito diferente da nossa. Recordo-me de um espetáculo que demos para a comunidade israelita em que um dos temas finais era em hebraico. O tema era acompanhado só por mim, à guitarra e eu não percebia uma única palavra do que a Chen cantava. Foi um desafio interessante.

 

 

AMMA: Que instrumentos musicais toca neste momento e qual deles o seu preferido?

 

JSF: A minha formação é em guitarra, mas toco piano e baixo também. Obviamente que a guitarra é o que me preenche mais e no qual tenho uma “linguagem mais fluente”

 

AMMA: Em termos de guitarras, qual é a sua favorita (marca/modelo)?

 

JSF: Pergunta muito complicada… Se perguntarem a um guitarrista quantas guitarras precisa, a resposta mais comum é: Mais uma do que as que tenho. Claramente já fui mais ligado a marcas, até porque hoje em dia, há marcas “low budget”, com grande qualidade.

Ao vivo, dependendo do projecto posso pender mais para a Fender (telecaster e stratocaster) ou para a Gibson (Les Paul e 335), mas diria que a 335 está praticamente presente em tudo, dada a sua versatilidade. Noutros projectos uso Gretsch e Taylors, também.

 

AMMA: Do tempo que passa em estúdio versus o tempo de actuação em palco, qual é o mais exigente e desafiante?

 

JSF: Ambos têm os seus tempos de exigência e os seus desafios. Em estúdio, tudo tem que ficar perfeito, até ao mais pequeno pormenor. Já em palco, de tudo pode acontecer e nem sempre está nas minhas mãos.

 

AMMA: Como é ser Director Musical de “Max Costa & The Big Fat Blues” e “Madrediva”? São dois projectos muito diferentes entre si?

 

JSF: Madrediva é projecto muito recente, nasce da ideia de se criar uma fusão entre o canto lírico, a música tradicional portuguesa e o fado. Exige alguma pesquisa e cuidados nos arranjos. Com os Big Fat Blues, a linguagem que o Max aborda nos seus temas, permite-me dar asas à imaginação, inclusive às vezes compomos em parceria, o que me parece resultar bastante bem, uma vez que falamos a mesma linguagem. O Blues é universal e neste caso, transatlântico, uma vez que junta o Brasil e Portugal no mesmo projecto.

 

AMMA: Assumir a Produção destas duas bandas, com as outras emque também é músico, em tempos normais (fora da pandemia) preenchem-lhe o seu tempo por inteiro?

 

JSF: Não, de todo. Tem de sobrar tempo para gerir a UpMusic Talents que não produz só espetáculos, mas também eventos, como o Baile Veneziano, ou a Gala Glamour & Solidariedade, por exemplo, que são eventos anuais.

 

AMMA: Como estamos em tempos de pandemia, a cultura também está “muito doente” tendo muitas pessoas a passar maus bocados. Como é que os artistas e as suas equipas conseguem sobreviver financeiramente com as actividades paradas há tanto tempo?

 

JSF: A palavra é mesmo sobreviver… Sinceramente não sei, como todo este sector tem sobrevivido… Muitos, venderam instrumentos, outros ficaram sem as suas casas e regressaram a casa dos pais… Outros contam com ajudas de amigos e de iniciativas privadas de instituições como a União Audiovisual, por exemplo. Mas se chegarmos ao fim disto, não foi com certeza com a ajuda do governo…

 

AMMA: Os trabalhos de estúdio, desenvolver temas, ensaios e gravação de discos também têm estado parados?

 

JSF: Se a parte técnica  está parada, a criatividade não pára. Não é uma pandemia que nos vai impedir de compor e criar novos temas, felizmente.

 

AMMA: Antes deste actual confinamento, a lotação das salas de espectáculos já estavam com a capacidade reduzida, seguindo as regras da DGS. Em salas mais pequenas cuja lotação não dava para abrir portas a um espectáculo só com público, houve artistas a fazer streaming, ou a vertente mista com público e streaming. Como prevê que seja o futuro da cultura após pandemia, o streaming veio para ficar como complemento financeiro à bilheteira da lotação da sala?

 

JSF: Do meu ponto de vista, acho complicado que seja um complemento de bilheteira. Até pode ter vindo para ficar, como uma forma de divulgação “live” do trabalho dos artistas, mas não pode, nem deve, substituir a experiência de assistir a um espetáculo ao vivo.

 

AMMA: O Canal Johnny Guitar surge em que altura? Qual foi a ideia principal ao criar este ponto de contacto com os fãs e o mundo da cultura?

 

JSF: O Canal Johnny Guitar, surge precisamente no inicio desta pandemia como uma maneira de tentar manter viva a chama da Cultura, de alguma forma. Surge também para nos manter a mente ocupada lá em casa, uma vez que havia tempo livre a mais logo no inicio da pandemia.

 

 

AMMA: O programa Brainstorm é o ponto chave do canal?

 

JSF: O Brainstorm, complementa um pouco a ideia de divulgarmos de alguma forma  a cultura e os nossos artistas, nesse sentido acaba por ser muito importante para o canal, sim.

 

AMMA: A UpMusic Talents tem uma ligação ao projecto União Audiovisual que apoia artistas e pessoal da cultura carenciados. Como é que surgiu esta ligação? Que curiosidades já tiveram na vossa ligação a esta causa?

 

JSF: Não é diretamente a UpMusic Talents, mas sim o Canal Johnny Guitar. Através do nosso canal, conseguimos fazer algumas parcerias que nos permitiram angariar bens alimentares que têm sido entregues regularmente à UA. Paralelamente a isso, a equipa do Canal Johnny Guitar, acaba também por se juntar aos muitos voluntários da associação.

 

AMMA: Quando a pandemia passar, o mundo será diferente em muitos aspectos, mas alguns serão idênticos ao passado. Que conselho gostava de deixar em especial aos jovens músicos e às chamadas bandas de garagem (que passam todos por muitas dificuldades) para que consigam levar os seus projectos para a frente sem os deixar morrer?

 

JSF: Nunca a música foi um negócio fácil. Se acreditam no vosso potencial e nos vossos projecto dêem tudo o que têm e não desistam. Vão à luta, mostrem a vossa música, batam à porta das editoras, dos agentes, sejam persistentes.

Podem ter a certeza que mais cedo ou mais tarde vão ser recompensados.

 

Texto e Fotos: Pedro MF Mestre

 

 

Pedro Mestre, a viola campaniça e o cante alentejano

 

Hoje vamos conhecer o músico e cantor Pedro Mestre, impulsionador da viola campaniça e do cante alentejano.

 

Para os nossos leitores é curioso que o Pedro MF Mestre esteja a entrevistar o Pedro Mestre. Temos o mesmo nome, somos pessoas diferentes, com ofícios diferentes, contudo agora estamos a trabalhar em conjunto para que fiquem a conhecer melhor este músico e o seu trabalho.

 

Pedro Mestre tem origem em Castro Verde, Aldeia de Sete, e desde cedo se dedicou à cultura tradicional alentejana de modo a não a deixar cair no esquecimento, fazendo renascer e perpetuando a viola campaniça assim como também a associá-la ao Cante Alentejano, hoje em dia considerado  Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

 

Pedro teve como mestres neste instrumento musical, Manuel Bento e Francisco António.  Além de a interpretar e ensinar, também se dedica ao seu fabrico. Perante um olhar menos atento é parecida com uma viola clássica, mas quando se aprecia o seu desenho notamos as diferenças. A primeira delas são as suas 10 cordas de aço sendo que a clássica tem seis de nylon. As suas linhas também têm uma curvatura mais suave e delgada. O seu som e o modo de tocar é completamente diferente. Este instrumento musical tem algumas referências escritas datadas 1916. A sua história está circunscrita ao uso na chamada zona “Campo Branco” que compreende Aljustrel, Ourique, Castro Verde, Almodôvar e  parte do concelho de Odemira. Embora também haja referencias à mesma em Beja e Serpa. Esteve com más perspectivas na sua continuidade tendo em conta que no final dos anos 80 somente existiam dois mestres da mesma, os professores de Pedro Mestre.

 

Este artista pegou nela e fez o milagre da sua difusão e a englobar em vários projectos dos quais ele faz parte em conjunto com o Cante Alentejano.

 

Com um vasto currículo e participação em muitas actividades, há uma que merece um especial destaque. Desde 2006 desenvolve o “Cante nas Escolas” onde ensina a música tradicional alentejana a alunos das escolas do 1º Ciclo do ensino básico. Esta acção já tem dado frutos práticos como por exemplo o Grupo Coral Juvenil de Almodôvar e o Grupo de Cante Juvenil de Vila Nova de São Bento formados por alunos através a sua influência.

 

O Pedro Mestre está a mostrar a Portugal e ao estrangeiro a tradição musical da Planície Dourada, com várias participações ao vivo e através da sua discografia, que desde 2006 conta com nove álbuns editados sendo o mais recente "Mercado dos Amores" lançado em 2019.

 

Vamos conhecer melhor o artista Pedro Mestre e a sua valência no mundo da Viola Campaniça e do Cante Alentejano.

 

AMMA: Como entrou no mundo da música tradicional alentejana? Teve alguma influência?

 

Pedro Mestre: Sim, desde muito cedo tive a influência dos meus pais, dos meus avós, da aldeia de onde eu sou natural que é Sete como diz na introdução. Desde muito cedo comecei a ouvir os homens nas tabernas, na rua… embora tendo 37 anos de idade por vezes a maioria das pessoas da minha idade não tiveram a mesma vivência que eu, mesmo aqui da mesma região, mas como eu que desde muito cedo gostava e que apreciei todas estas questões ligadas à cultura e à tradição, valorizava os mais velhos, de os ouvir, gostava de estar presente nos ambientes e momentos de convívio, tudo isso foram influências a partir da aldeia, a partir da minha família, da minha mãe principalmente, do meu pai que a música faz parte da nossa vida, não enquanto músico mas como ouvinte e colecionador de gravações e registos sonoros da música tradicional. A partir daí eu começo a querer saber mais e começo um caminho de ir atrás daquilo que eu queria. Nesse tempo quando eu tinha 6, 7 ou 8 anos de idade tenho ideia disso, ouvia os homens na rua, ou saía à rua e ouvia os homens a cantar na taberna numa aldeia que teria na altura 400 habitantes, relativamente pequena, em que basta um falar mais alto que ouve-se,  e às tantas na taberna os homens cantando, 10 ou 12 homens, 4 ou 5 depende, e ouvia-se o cante por toda a localidade e eu ia atrás. O meu pai comprava uma cassete ou um disco de vinil e eu ouvia-o 300.000 vezes. É aí a base, penso eu, de toda esta minha paixão pela música tradicional, pelas tradições do Alentejo.

 

AMMA: Ou seja pelos 7 ou 8 anos?

 

PM: Desde que começo a ter memória de todas essas vivências. A minha mãe conta-me que cantava no berço para mim e para o meu irmão. Se saíamos ou estávamos em casa estava sempre um rádio a tocar, o rádio do carro sempre a tocar, todas essas vivências influenciaram.

 

AMMA: A continuidade da viola campaniça esteve ameaçada, tendo somente dois mestres nos anos 80. Como conseguiu inverter essa tendência? Quantos artistas temos neste momento a tocar este instrumento?

 

PM: Pelos 9, 10 anos de idade frequentei um coral infantil em Castro Verde. Só para o situar na altura, na aldeia estudava até ao 4º ano e depois a partir do 5º ano tínhamos que nos deslocar todos os dias para a sede de concelho que é Castro Verde a 17 ou 18Km por aí, e depois de eu ir para Castro Verde fui para uma turma onde havia alguns colegas que frequentavam o Grupo Coral Infantil, “Os Carapinhas” que ainda existe e que sabendo que eles cantavam lá, e eu gostava bastante, pedi para se era possível entrar neste grupo que eu já conhecia através da rádio local assim como também a viola campaniça. Eu tomo conhecimento da viola campaniça precisamente nessa altura quando eu vou para este grupo coral e infantil. Ouço a viola campaniça através da rádio, num programa da rádio local, que também ainda existe desde meados ou finais dos anos 80, nessa altura passavam na rádio um vinil do Dr. José Alberto Sardinha  com a viola campaniça precisamente com os últimos mestres tocadores. Aqueles que mais se destacavam eram aqueles que eu depois tive a oportunidade e o privilégio de conhecer e aprender a tocar a viola campaniça, o mestre Manuel Bento e o mestre Francisco António, eu trato-os por mestres por mestria por os considerar uns conhecedores da arte. Inicialmente, ouço a viola campaniça na rádio, tinha uma sonoridade que me fascinava, depois quando estava nesse coral infantil estamos a falar com 9 ou 10 anos de idade, eu nasci em 1983, e então em várias actuações que fazíamos por todo o concelho e não só, por vezes acontecia os dois grupos que pertenciam à mesma cooperativa que é a Cortisol (Cooperativa de Informação e Cultura), e o nome de uma ave aqui da região, onde também tem a Rádio Castrense, e existe para trabalhar também a cultura local desde os grupos corais, o artesanato, museus e por aí fora. Então por várias actuações que fazíamos em conjunto eu queria sempre conhecer mais sobre os tocadores, sobre os mestres, embora sendo uma criança não davam muita atenção, aquela situação que o que é que ele quer, não era bem entendido, mas há uma altura em que eles dizem que os jovens e as crianças não têm interesse em aprender a tocar a viola campaniça, que na verdade consideram um instrumento em desuso, um instrumento que está a desaparecer e que com a morte deles, com o desaparecimento destes dois tocadores, corremos o risco desta viola ou a técnica de tocar estas violas se perder. É aí que eu vou para casa e confronto a minha mãe dizendo-lhe que queria mesmo muito aprender a tocar a viola campaniça. Para além de ser um instrumento que eu gostava, era também uma sonoridade e uma vivência que para mim iria dar muito gozo estar na presença destes senhores e conviver com eles. Às tantas começo a aprender a tocar viola campaniça com o Sr. Francisco António, que é tio do Manuel Bento, embora mais novo. Depois quando eu começo a tocar com eles, poucos meses depois eu começo a tocar e a fazer apresentações com eles, indo à Rádio, indo a salas de espectáculos… o que é certo é que eu vou crescendo enquanto pessoa e eles vão ficando mais velhos eles vão atingindo uma idade que já não tinham assim grande vontade de sair e passa a ser o contrário, passo a ser eu a estimular estes homens para tocar para poder sair a mostrar a viola campaniça e portanto a partir dai as coisas começam a ganhar outra dimensão e eu começo a ter uma responsabilidade diferente, que na verdade eu não sentia dessa forma, que eu fazia-o com uma grande vontade e gosto e entusiasmo porque ganhei uma confiança tal, um à vontade tão grande com eles, passando a ser pessoas da mesma família começamos a ter uma cumplicidade uns com os outros e às tantas eles diziam que era uma grande satisfação e um enorme gosto e era a luz ao fundo do túnel o facto de eu ter aprendido a tocar com eles, que era uma esperança de o instrumento não se perder. E é ai, respondendo à sua questão, que toda esta dinâmica criada em volta da viola campaniça que se inicia. Em que vamos para festivais fazer workshops de viola campaniça, começamos a desenvolver aulas do ensino da viola campaniça aqui na região, aulas privadas em nossas casas, em que tínhamos a dificuldade de ter violas, passamos a ir buscar violas a Braga porque havia um construtor, havia e ainda existe o Domingos Martins Machado, em Tubosa, perto de Braga, o homem que fez o museu dos cordofones, das violas tradicionais portuguesas e onde a partir do livro dos cordofones portugueses de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira ele tomou conhecimento da viola campaniça e começou a construir. Nós tomámos conhecimento que esse senhor construía violas campaniças e comprámos algumas. Algumas aproveitámos porque a sonoridade é muito genuína portanto tínhamos uma grande dificuldade em ter violas. Então era difícil ter alunos se não tínhamos violas para as tocar.

 

 

AMMA: O Pedro também é construtor deste instrumento musical. Aprendeu essa arte com estes mestres ou teve outra escola?

 

PM: Nessa altura fomos à procura de violas antigas que pudessem existir na região com estes dois mestres, que eles sabiam que no lugar X havia uma viola e a família é esta e aquela e encontrámos várias violas antigas, completamente degradadas e tentámos restaurar e é aí que aparece um outro senhor que é Amílcar Silva que era um homem também com muita habilidade nas mãos e trabalhava a madeira e entretanto ele reformou-se e por sua autoria e com a influência da Rádio, ele ouvia muito a Rádio, tinha memória que o pai dele tinha uma viola, tocava e acompanhava os cantos de despique e ele decidiu fazer uma viola. E a partir daí em conjunto com o mestre Manuel Bento, com o mestre Francisco António e um outro senhor que despertou curiosidade na aprendizagem do toque chamado António Bernardo. E com este grupo de pessoas conseguem-se juntar e reunir um conjunto de violas antigas e a partir daí começam a ser construídas violas aqui na região. O senhor Amílcar com mais disponibilidade, com melhores condições começa a construir e eu a par de toda essa gente também comecei a desenvolver a construção, a tirar experiências pelas violas antigas, a tirar experiências pelo conhecimento dos mestres e em conjunto a coisa ia acontecendo e surgiram uma série de violas embora não tão perfeitas como nós desejaríamos, não tão próximas da tradição. Mais tarde é que conseguimos chegar áquilo que era na verdade a viola antiga, ou as novas violas próximas das violas antigas em termos de madeiras, de qualidade porque durante muito tempo o Sr. Amílcar foi fazendo experiências, foi criando instrumentos até apurar. Depois essa parte, para nós, deixou de ser uma preocupação, porque a dada altura nós divulgámos esta actividade e outros violeiros, construtores de instrumentos de corda em Portugal, começam a vir ter connosco e a querer saber como fazer a viola campaniça e com base naquilo que era o nosso estudo dos moldes e do instrumento em si, instrumentos antigos, uma série de construtores em Portugal passaram a construir e hoje é uma realidade que para nós já não nos preocupa porque temos provavelmente uma dezena de violeiros que estão a construir a viola campaniça de uma grande qualidade, instrumentos, alguns deles muito próximos do que é a viola antiga e a construção deixou de ter essa preocupação que na altura tínhamos e agora há violas por todo o lado. Hoje não tenho noção da quantidade de pessoas que tocam a viola campaniça. Se em 2009 fizemos o encontro de tocadores de viola campaniça  e conseguimos reunir, salvo erro, 32 tocadores de viola campaniça da região e não só. Nessa altura em 2009, relativamente há pouco tempo, conseguia-se saber que existiam 32 tocadores. Quando eu comecei a tocar no início dos anos 90 havia estes dois, havia mais um velhote ou outro que já não tocavam, mas eram tocadores porque ainda eram vivos, e foram surgindo todos esses. Hoje não sei precisar quantos são porque muitos desses começaram a ensinar, tantos outros começaram a tocar e a explorar o instrumento, músicos de outras vertentes culturais, e a viola campaniça na técnica tradicional que acaba por oferecer a possibilidade de cada um explorar os seus conhecimentos, explorar o instrumento e às tantas, hoje a viola campaniça é um instrumento que está a ser bastante tocado, aquilo que poderá estar em extinção ou aquilo que poderá precisar de se fazer algo mais para que não se perca, é a técnica tradicional. Quer queiramos, quer não, este é um instrumento que para ele ter aquelas características, aquela sonoridade que tem, aquele tipo de timbrado que o instrumento tem, aquele dedilhado, é preciso que respeitar uma série de questões quer desde a construção do instrumento, as próprias madeiras, o formato do instrumento enquanto uma caixa de ressonância, os bojos a cintura, o comprimento da corda vibrante, à escala, todas essas características têm que se manter para que se possa dizer que na verdade este instrumento que eu fiz, é uma viola campaniça.

 

AMMA: Como é a construção dela? Que aspectos técnicos mais relevantes tem de diferença em relação à guitarra clássica?

 

PM: Bem, é um cordofone, é uma viola, tem uma caixa de ressonância, tem uma escala, um braço, uma cabeça, tudo isso são semelhanças. Agora a campaniça difere no sentido que é um instrumento mais pequeno, um instrumento com os bojos mais acentuados, mais redondos, a cintura muito apertada e que obedece a uma dimensão padrão entre os dois bojos, o bojo superior e o bojo inferior e a cintura, que é o que divide os dois instrumentos. Então em termos estéticos percebemos que é completamente diferente. É um instrumento basicamente em formato de oito. A guitarra já é mais um formato de pera, um formato em que a cintura é larga. O mestre Manuel Bento até dizia que na verdade a viola campaniça, quem a criou deve de se ter inspirado numa menina delicada, de cintura delicada, porque ela é toda muito feminina. E depois tem a escala rasa que é nivelada com o tampo da caixa, a guitarra clássica,  o violão e a viola de fado são de escala sobreposta e a campaniça é de cordas duplas, cordas de aço, a guitarra na maioria dos casos são de nylon mas também  existe de 12 cordas, mas a campaniça tem estas características.

 

AMMA: Quando diz cordas duplas, significa que a mesma corda tem o mesmo afinamento? Com 10 cordas temos 5 afinamentos?

 

PM: São duas cordas que funcionam em ouriço, temos 5 afinações com 5 tons diferentes com 10 cordas. Elas funcionam duas a duas sendo que os bordões têm uma corda em aço, o par do bordão é uma corda em aço, afinada uma oitava acima assim como o último bordão, o mais grave, tem uma corda em latão também afinada uma oitava acima.

 

AMMA: Do género das guitarras country americanas com corda dupla?

 

PM: Sim, género das guitarras country americanas, género da guitarra portuguesa, da viola caipira e de tantas outras violas tradicionais que têm cordas duplas e que os bordões são sempre acompanhadas por uma corda em aço que afina uma oitava acima.

 

AMMA: Há uma grande procura pela viola campaniça por parte de estrangeiros? Ou seja de Portugal já disse que sim, mas do estrangeiro vêm ter convosco para fazer encomendas?

 

PM: Sim há muita gente a procurar a viola campaniça por todo o país e por todo o mundo quase a bem dizer. Se por acaso pensarmos que por exemplo no Brasil a viola campaniça teve um grande destaque por um trabalho que eu desenvolvi com uma parceria com um músico brasileiro que é o Chico Lobo, e que com o nosso encontro de violas de arame e a mostra internacional de violas de arame que acontece no Brasil, temos dado destaque ao instrumento e a viola campaniça. Segundo dizem as fábricas de construção de instrumentos e os violeiros, é das violas que mais procura têm, e eu também tenho essa noção porque muitas pessoas vêm ter comigo para comprar violas, eu também vou fazendo algumas inclusive com esta questão da pandemia voltei a trabalhar na construção, estou juntamente com o Sr. Daniel Luz que é outro violeiro que surge aqui na região em S. Teotónio, o Sr. Daniel Luz que começa também a construir cordofones e a dedicar-se à viola campaniça. Os dois estamos a leccionar uma formação de construção no Centro de Valorização da Viola Campaniça e do Cante de Improviso em S. Martinho das Amoreiras, que é uma escola, é um espaço cultural dedicado a esta arte da viola campaniça: do cantar, a viola campaniça, do cante alentejano e o cante de improviso que é uma forma de cantar que a viola campaniça sempre acompanhou. Esse Centro de Valorização do qual eu também sou coordenador e neste momento estamos a dar formação da construção nesse espaço.

 

AMMA: Então a procura é grande?

 

PM: Muito, tem muita procura o instrumento para se tocar, o instrumento que muitas das pessoas da região e nem só, procuram o instrumento porque é um instrumento bonito e fazem questão de ter um instrumento destes. O que é certo é que a viola campaniça e os cordofones portugueses nestes últimos 10 anos têm-se afirmado bastante. Isso é muito bom para nós e é muito bom para a nossa cultura, porque não podemos esquecer que Portugal é um país rico em cordofones. Simplesmente os nossos governantes, dirigentes culturais, não os valorizam. Infelizmente é assim.

 

AMMA: Ou seja, não têm o seu devido reconhecimento?

 

PM:  Não tem o devido reconhecimento seja ele qual for o instrumento tradicional, seja ela qual for a cultura que se faça não tem o devido reconhecimento infelizmente.

 

AMMA: Em média qual é o investimento que um aluno tem que fazer para começar as suas aulas?

 

PM: Nós aqui no Centro de Valorização achamos que por bem deve ser uma oferta, que embora não tenha sido assim o meu início, mas achamos por bem que deve ser uma oferta e as aulas são gratuitas. Este Centro de Valorização que funciona a partir de um consórcio onde a Câmara Municipal de Odemira lançou o desafio à Associação para o Desenvolvimento de Amoreiras-Gare à Junta de Freguesia de S. Martinho das Amoreiras, à Casa do Povo de S. Martinho das Amoreiras e disponibiliza estas aulas. À partida os instrumentos são emprestados, temos uma colecção de instrumentos que usamos para leccionar. Os alunos, alguns deles frequentam a formação de construção e começam por construir o seu primeiro instrumento. Assim como também há um espaço de tempo de aulas de experiência que os alunos precisam de ter. Porque um instrumento destes é um investimento que nem sempre é possível para as pessoas adquirirem um instrumento que depois acabam por não dar utilidade se não tiverem desempenho no toque do mesmo. Então há ali um espaço de tempo que a pessoa precisa de ter experiência para, e sim nós emprestamos o instrumento e a pessoa pode até levar para casa e  acabam na maioria sair tocando o instrumento e adquirindo o instrumento. O instrumento de iniciação é mais barato.

 

AMMA: Um instrumento fica para que valores?

 

PM: A relação qualidade /preço com os acessórios que possa ter, uma bolsa para transporte, afinador, poderá andar à volta dos 400€ que é um instrumento para iniciação já de qualidade. Embora depois a qualidade não tenha limites.

 

AMMA: Voltando um pouco atrás, diz que tem cada vez mais tocadores, mas tem no fundo algum receio que corra o risco de desaparecer ao longo das gerações ou acha que a continuidade que está a ser dada permite manter durante essas gerações?

 

PM: Nós estamos numa época em que está na moda que aquilo que é das tradições, principalmente aqui no Alentejo, a música da tradição, o cante e a viola campaniça, estão na moda. Agora o que está a acontecer que pode colocar em risco é esta necessidade e uma ambição desmedida de querer ser diferente. De querer fazer melhor e de competição. Que é aquilo que me preocupa é quando vejo os jovens a competir sabe-se lá com quem, mas em competição, porque sente-se isso, e tentar fazer diferente, a deturpar o que quer que seja o cante, a viola campaniça, a técnica de execução da viola campaniça. As formas que existem, as diferentes formas de colocação da voz no cante, por toda a região e a juventude está precisamente a deturpar tudo isto.

 

AMMA: Ou seja o risco é a deturpação. Não o número de pessoas a interpretar mas sim a deturpação da originalidade?

 

PM: Sabemos que quantidade não significa qualidade, seja naquilo que for. Seja enquanto cantadores seja enquanto tocadores de viola campaniça e hoje, provavelmente contra mim falo pois no início de toda esta situação quando começo a tocar a viola campaniça com os mestres, a nossa intensão era reunir quantos mais melhor. Interessados só que fosse para nós já era muito bom. Porque às tantas nós fomos criando aqui uma outra questão. Fomos educando o público para esta sonoridade. Porque muitas vezes eramos confrontados por músicos, por pessoas conhecedoras da música e de outros cordofones que nos diziam que na verdade o instrumento estava desafinado. “Mas como é que vocês conseguem tocar um instrumento desafinado?”, “Como é que é possível insistir numa coisa em que isso não funciona?”, eramos confrontados com este tipo de questões. Na verdade na região havia ainda memória e ainda estava lá no subconsciente das pessoas esta sonoridade. Tanto que a partir do momento que ela começa a ser tocada por toda a região, a região identifica-se com ela. As pessoas têm memória de ouvir falar de uma viola, e existem registos do século XIX e XVIII por aí, há registos quer em tablatura quer em áudio, quer em matérias de edição, há várias revistas que fazem referências à viola. Porque na verdade a viola do Alentejo passa a ser chamada de campaniça recentemente, com essa recolha dos cordofones, do livro dos cordofones portugueses, a partir daí é que o instrumento é chamado de campaniça, os mestres não a tratavam assim, tratavam-na por viola, não havia mais nenhuma, aquela era a viola. Aqui nesta região tinha estas características, se formos ver uma recolha do Giacometti, onde ele fala com um construtor que até é da freguesia de S. Martinho das Amoreiras, ele fala com o construtor e pergunta-lhe se esta é uma viola campaniça e ele diz que “é uma viola, é cá do campo, por isso é campaniça”. “É uma viola que é cá do campo” porque o nome campaniça deriva do campo e também de uma determinada região aqui do Baixo Alentejo que é região campaniça, assim como depois a outra região é a margem esquerda do rio Guadiana, a outra é a terra de barro, a outra é a Serra, o Alentejo divide-se aqui por estas designações e diferentes áreas quer da forma como é laborado geograficamente o território: mais plano, mais de encosta arraiana com Espanha e assim como a zona da serra e o tipo de terra, daí que é o barro, o campaniço, a serra, a margem esquerda e o litoral. Divide-se assim nestas designações a região. E às tantas o senhor responde que: “é uma viola, é cá do campo, sim também pode ser campaniça.” O Sr. Manuel Bento diz que o seu pai dele nunca tratou aquela viola por campaniça. Tratou-a sempre por viola.

 

AMMA: Então foi nessa altura com Michel Giacometti que começou a ser designada por campaniça?

 

PM: Provavelmente por Michel Giacometti, ou já haveria algum registo da viola por nome campaniça por exemplo por Armando Leça, que aparece uma pequena referência a esta viola de campaniça. Não sei precisar ao certo em que ano é que poderia ser, mas tudo o que há daí para trás, a referência feita e o nome dado ao instrumento do Alentejo é de viola. Somente viola

 

AMMA: Em 2006 começou a ensinar aos alunos do 1º Ciclo a música tradicional alentejana. Qual foi a reacção dessas crianças? Eles aderiram logo? Teve algum desafio interessante a ultrapassar?

 

PM: Sim, é porque na verdade nessa altura, há relativamente pouco tempo, era uma altura em aquilo que é nosso ninguém valorizava e em localidades que não havia movimentação cultural nenhuma, como por exemplo não havia grupos corais, não havia eventos que tivessem música local e de cultura local era bastante difícil e muitos dos meus alunos nessa altura desconheciam completamente o que era música local, música tradicional, porque a influência da televisão, a influência das rádios e a influência da Internet combatia cada vez mais este tipo de realidades culturais e os desafios que eu tive foram alguns, porque os meus alunos não tinham noção e aqueles que tinham viam-no como algo que era depreciativo, como por exemplo situações que durante muito tempo no Alentejo não era permitido cantar nas tabernas, houve uma altura que não era permitido cantar na rua até certa e determinada hora, não era permitido cantar nas tabernas depois das tantas horas. Mas há uma altura, que foi a última fase do cante antes da classificação da Unesco, há uma altura em que o cante é visto como algo depreciativo, algo que não é de interesse e não beneficia a uma casa de comércio alguém cantar dentro desse espaço, porque era considerado que estaria embriagado, alguém que não estaria no seu juízo perfeito. E sim, eu tinha muito essas situações de que por exemplo tenho ciente um aluno que me respondeu que na verdade “Ah o meu pai às vezes canta umas coisas mas é quando está bêbado”. Lá está “é quando bebe uns copinhos a mais e depois canta e não gosto muito quando ele faz isso.”

 

AMMA: Ou seja estava associado ao movimento mais das tabernas e vendas, como são conhecidas no Alentejo.

 

PM: Das tabernas, vendas e até mesmo nos cafés. Quando começam a deixar de existir tabernas e passam a existir cafés, que na verdade passou a ser um espaço mais moderno, um espaço mais cuidado em termos de aspecto, aí sim é que era mesmo proibido. O dono da casa expulsava, punha na rua qualquer pessoa que começasse a cantar.

 

AMMA: Também foi uma estratégia sua para que eles começassem logo de pequeninos ligados à música alentejana?

 

PM: Sim, eu como lhe disse, já cantava nos grupos corais, saio do grupo infantil para o grupo de adultos de homens, grupos com grande peso como por exemplo os Ganhões de Castro Verde, e começo a fundar grupos corais pelas aldeias aqui da região, vilas até aqui da região, formar novos grupos corais. Nesse ano de 2000, surgiram vinte e tantos novos grupos corais aqui na região. A faixa etária era alta, dos elementos destes grupos corais. E então a preocupação e a minha ideia passava por se nós já perdemos esta forma de ser e estar em casa com os nossos familiares, de fazer serão de contar histórias e ouvir histórias, de ouvir os nossos pais e os nossos avós, se já perdemos toda esta forma de estar e de viver, e então não há espaço e muito menos oportunidade para se aprender este tipo de história e de cantes e de violas e tradições. Então precisamos de fazer alguma coisa que é ir até onde estão os jovens e o 1º Ciclo nessa altura em 2006 começa com o programa de enriquecimento curricular que se chamadas as AEC’s em que tinha a expressão musical e nessa expressão musical surgiu a oportunidade, num encontro que tivemos em que falávamos sobre a música tradicional, falávamos sobre o que fazer para com esta questão da música tradicional não ter interesse pelos mais novos, eu fui convidado e apresentei essa minha ideia, o meu projecto que devíamos ir até às escolas, e estava presente uma vereadora da Câmara Municipal de Almodôvar que tinha um horário por completar, por entregar de música, lançou-me o desafio de eu leccionar naquele horário dos alunos do concelho. Para mim foi uma excelente oportunidade.

 

AMMA: Foi o ponto de partida?

 

PM: Foi o ponto de partida para mim, para o cante alentejano, para a região e para uma série de pessoas que a partir daí durante alguns anos, 5 a 6 anos depois começam a surgir outros cantadores, pessoas novas também ligadas ao cante, a poder e a querer dinamizar esta actividade fora de portas, noutros agrupamentos. Portanto o ponto de partida é em 2006 em Almodôvar, comigo no 1º Ciclo, depois eu vou iniciar essas aulas também em Serpa, o projecto ganhou uma dimensão enorme e outros municípios passaram a oferecer aos seus agrupamentos de escolas o cante, hoje também a viola campaniça no concelho de Odemira. Embora também eu como a minha intensão era puder estar com os mais novos e ter a oportunidade de falar para eles do cante e das tradições. Então não podia não levar a viola campaniça e de certa forma fui abordando duas temáticas que eram fundamentais. Que a viola campaniça ligada ao cante torna-o mais apetecível, torna-o mais encantador assim dizendo.

 

AMMA: Ter sempre as duas artes associadas?

 

PM: Sempre, porque elas sempre estiveram associadas. Elas só não estavam associadas e isso é uma teoria, que na verdade não é só teoria é uma realidade, que ao longo dos anos os defensores da tradição, os tradicionalistas foram entendendo e aceitando, porque a viola sempre existiu no Alentejo, e era de certa forma o instrumento que acompanhava nos bailes e assim como mais tarde surgiu as harmónicas, concertinas e por aí fora. Então durante uma série de tempo o cante teve o seu grande palco nos trabalhos no campo. Se por acaso alguém levasse uma viola campaniça para trabalhar no campo, num tempo da ditadura quem era o patrão que aceitava uma coisas dessas? “Você vem para aqui para trabalhar ou vem para aqui para tocar viola?” O cante, as gargantas não influenciavam, mas mesmo assim há histórias de cantadores que dizem que quando andavam a trabalhar, se alguém começasse a cantar o manager pedia logo para cantar uma moda mais rápida para ver se o trabalho avançava mais depressa. Ainda assim o ritmo da melodia tinha influência e mexia com o manager lá do trabalho. Então a campaniça nunca é levada para o trabalho, é um instrumento que tocava nas tabernas, as pessoas ao serão sim cantavam acompanhadas à viola campaniça, nos lugares em que a campaniça ainda existia acompanhava os cantares ao despique, é claro que sabemos que a viola entra em desuso ainda lá para trás nos inícios do século XIX, ela perde-se a partir daí, porque deixa de haver aqueles nómadas que eram trovadoristas, homens trovadores que andavam de feira em feira vendendo poesia,  que também eram poetas, levando novidades, notícias, levavam histórias de terra para terra, que levavam modas e composições deles provavelmente, que as pessoas depois ouviam durante a Feira de Castro que acontecia uma semana inteira de feira, as pessoas vinham para a feira e ouviam homem afamados que vinham diziam poesia tinham o dom da palavra e que usavam a palavra em rima para seduzir e cativar as pessoas. Contavam histórias de acontecimentos que houve em tal sítio e ficava tudo surpreendido e hoje há muita gente ainda a contar histórias que ouviram em feiras, modas que ouviram nos mercados, porque era assim que acontecia. Quando tudo isso se perde. A campaniça, a viola que andava com essa gente também se perde, também desaparece. Tanto que o último construtor que há registo aqui na região, foi esse que o Giacometti recolhe mas esse senhor já nada tinha que fazer. Porque ele a par da construção da viola campaniça também era abegão, também era homem que trabalhava as madeiras que fazia utensílios para as casas das pessoas, o mobiliário da altura e algumas peças ligadas à agricultura, como alfaias agrícolas e por aí fora e era o trabalho dele também. Ele mantinha uma coisa com a outra, que ele dizia que de vez em quando ele recebia uma ou outra para poder restaurar. De resto mais nada.

 

AMMA: Alguns desses seus alunos deram continuidade ao estilo musical tendo já grupos a dinamizá-la. Vocês continuam a trabalhar em conjunto ou eles estão a trabalhar totalmente autónomos?

 

PM: Às vezes a palavra trabalho pode levar aqui uma dimensão diferente da realidade. É que por muito que queiramos, ninguém consegue assumir esta actividade enquanto trabalho. Tenho alunos que foram meus alunos, já não o são hoje que cantam comigo em grupos corais adultos, que são grupos amadores. Depois outros alunos até que já estão a leccionar também cante nas escolas, já estão a ensinar noutros agrupamentos, assim como alunos de viola campaniça que tocaram comigo e que entretanto têm outros projectos deles musicais que fazem a vida deles, então desta nossa actividade há uma série de gente a integrar grupos corais jovens, que já são adolescentes, outros que já são adultos, que têm projectos criados e organizados por si e que têm uma vida bastante activa ligada a esta questão da música da tradição, que felizmente são agora o colher dos frutos das plantações que fizemos. Da semente que foi lançada, assim como também o público que nós conseguimos educar com esta nossa música. Por muito que queiramos a nossa intenção não é criar cantadores, com o projecto do cante nas escolas, é sensibilizar para com esta realidade. E é claro que depois de um grupo vasto de alunos, sim surgem alguns com muita qualidade, surgem alunos que acabam por se entusiasmar e dar continuidade a formar grupos, aprender a tocar a viola campaniça e fazer do instrumento um hobby que podem também ganhar a vida.

 

AMMA: Dos projectos que faz parte, a qual se dedica com mais tempo e empenho?

 

PM: Bem, eu dedico-me a todos os projectos que faço parte com algum tempo e muito empenho. Eu faço muita coisa ao mesmo tempo e acabo por deixar de igual modo essa divisão. Embora há outros que precisam mais da minha da minha dedicação que outros. Como por exemplo houve uma altura que o cante nas escolas mereceu muito o meu empenho, porque eu precisava de afirmar este projecto e que entretando foi-se afirmando e houve uma série de gente a juntar-se a ele e a coisa aconteceu. Noutra altura a viola campaniça precisava de ser tocada, precisava de se transmitir a arte e isso aconteceu. Entretanto agora dedico-me a conquistar o objectivo que qualquer um desses conquistou com o cante de improviso aqui na região, o despique acompanhado à viola campaniça. Também dedico-me com bastante empenho e que requer muito de nós o projecto do Centro de Valorização da Viola Campaniça porque através dele nós temos uma centena larga de alunos de várias faixas etárias “desde os 8 aos 80” e para nós é importante também motivar e estimular esta juventude para ter capacidade e aceitar que as diferentes faixas etárias possam estar juntas, envolver os mais velhos com os mais novos e vice-versa, porque são eles que são detentores e depois o mesmo projecto, que na verdade tudo isso é o meu projecto, mas o meu projecto a solo, aquilo que  neste momento pouco ou nada consigo fazer que são concertos em que subindo acima do palco conseguimos ganhar algum dinheiro, agora a carolice de andar com a viola às costas e estimulando este e o outro e motivando para que aconteça ninguém ganha dinheiro com isso na verdade. E às tantas para poder ter uma vida dedicada à cultura a 100% tem que haver alguma destas vertentes que nos dê sustentabilidade senão não conseguimos viver.

 

AMMA: No estrangeiro, como é que tem sido recebido? Há curiosidade por parte de espectadores que não tenham origem portuguesa?

 

PM: São quem conseguimos ter de maior curiosidade. São as pessoas que nos acarinham mais. Eu já fiz concertos no estrangeiro para comunidades portuguesas, já fiz concertos no estrangeiro para comunidades estrangeiras e sim chego à conclusão de que, sempre com bastante carinho pelos emigrantes portugueses e pelas comunidades portuguesas,  mas a capacidade de entendimento da cultura, o apreciar o nosso trabalho,  as comunidades estrangeiras são mais activas.

 

AMMA: Sobre o grupo internacional de tocadores de Violas de Arame, do qual faz parte, em que consistem as vossas actividades e quantas diversidades de instrumentos existem?

 

PM: Nós temos somente violas de arame. Embora depois as violas de arame elas dividem-se em várias. Viola campaniça, a beiroa das Beiras, a braguesa do Minho, a viola amarantina de Amarante, a viola dos Açores a viola da terra, Micaelense ou da Terceira; a viola de arame (é a única que mantém o nome), o rajão e o braguinha da Ilha da Madeira, o braguinha que é um cavaquinho mais pequenino,  e depois há as violas a caipira do Brasil, a viola fanangueira do Brasil, a sertaneja do Brasil e a rabeca brasileira que também faz parte desta nossa mostra deste nosso encontro de violas de arame. Embora depois há outras que nós no ano passado não fizemos o encontro por causa da pandemia, era para ter acontecido em Novembro de 2020, não aconteceu. Vai acontecer agora em Março a mostra internacional a partir do Brasil, a organização é no Brasil, a mostra vai ter três violas tradicionais portuguesas convidadas, e depois diferentes violeiros de viola brasileira.

 

AMMA: Têm tido muito intercâmbio entre vocês, desde espectáculos, gravação de discos? Chico Lobo com a sua viola caipira é um bom exemplo disso?

 

PM: Sim, desde 2006/2007 por aí, começa a parceria com o Chico Lobo onde resulta em 2007 um CD. A parceria, a junção das duas violas. Depois em 2010 um DVD em que mostra a cultura ligada a ambas as violas e depois tem um concerto nosso e depois temos feito várias coisas o encontro de violas de arame acontece o primeiro, que é no seguimento do encontro da viola campaniça com a caipira. A nossa intenção é estender e alargar este encontro e surge em 2009 o primeiro e daí para cá tem acontecido todos os anos uma ou duas vezes, em Portugal Continental, e até mesmo nos Açores. Há dois anos estivemos na Madeira, já tivemos três mostras no Brasil, e é a nossa intensão que a Norte de Portugal se possa abrir portas para este encontro, porque os encontros que têm acontecido em Portugal Continental têm sido somente a Sul, em que nós aqui com este movimento da viola campaniça tem dado destaque e tem sido parceiro com esta viola, embora a viola minhota, a viola braguesa e a viola amarantina também sejam parte integrante deste encontro mas o encontro ainda não aconteceu a norte do país, e nós gostaríamos muito que isso fosse acontecer. Que possa ser a organização que tem vindo até aqui, mas que se possa descentralizar e que quando ele se descentraliza o que acontece são as entidades locais que o financiam: municípios, associações e por aí fora… eu quero o encontro aqui na minha localidade então eu vou ter que procurar financiamento para ele ocorrer aqui. Estes encontros têm acontecido com financiamento dos municípios, como por exemplo aqui no Alentejo o encontro já aconteceu 7 ou 8 vezes com o apoio da Câmara Municipal de Castro Verde, com o apoio da Câmara Municipal de Odemira. São as Câmaras Municipais que pagam para este encontro acontecer. Não tivemos ainda um financiamento de mais entidade nenhuma. Nem de ministérios, nem da cultura nem de nada, nada… e na verdade nós fazemos cultura mas ninguém valoriza aquilo que nós fazemos.

 

AMMA: Quem tem tido mais interesse em apoiá-lo são os municípios?

 

PM: Estes municípios aqui do Alentejo, porque também têm alguma preocupação com a salvaguarda daquilo que é seu. Estes dois municípios quer Castro Verde quer Odemira têm interesse também na salvaguarda da viola campaniça, na promoção desta viola, na promoção destes cantares aqui da região, dos concelhos mais a Sul da região e são eles que investem para que isso aconteça. E dessa forma também o Centro de Valorização recebeu uma edição deste encontro de violas de arame e tem em projecto outra edição a de 2020 era para ter sido organizada pelo Centro de Valorização da Viola Campaniça. Não foi porque a pandemia não deixou. Este ano, a partir do Brasil, estamos a organizar a terceira mostra internacional, porquê? Conseguimos fazê-la porque é on-line. Estamos a organizar tudo isto e vai ser disponibilizado nas redes sociais, via Internet num site que está a ser elaborado para isso. Senão não conseguíamos fazer nada. E infelizmente ou felizmente que certos países têm despertado para apoiar a cultura mesmo que ela aconteça via on-line mas há essa preocupação, que as pessoas que fazem cultura, os músicos, os artistas, precisam de sobreviver. Principalmente dos que fazem cultura.

 

AMMA: Dos seus nove discos editados, qual foi o mais desafiante de compor?

 

PM: Estes dois últimos foram os mais desafiantes. Embora depois foi bastante motivante os discos com outras nacionalidades. Foi muito interessante essa parceria com o Brasil, muito interessante a parceria com o festival “Sete Sóis, Sete Luas”, na orquestra em que eu participo, onde eu entro e que origina um CD são de origem de Portugal, Espanha, Itália, Israel, Sudão e Croácia.

 

AMMA: Nestes tempos em que a cultura está mais parada devido ao Covid-19 conseguiu de alguma forma minimizar o impacto de estar fora dos palcos? Deu para arrumar ideias, fazer desenvolvimentos de projectos antigos que tivessem ficado em suspenso?

 

PM: Sim, sim. Temos aproveitado esta questão da pandemia para perceber que na verdade as coisas não são tão fáceis como pareciam e de certa forma agarrar projetos que estavam parados, desenvolver questões de composição de temas, fazer aqui uma reorganização do cancioneiro, naquele que é o meu cancioneiro, e aproveitar as novas tecnologias para fazer aulas on-line, entrar em contacto em conferência com colegas e  alunos para que possam de certa forma continuar a tocar, que não seja esta questão da pandemia um motivo de desmotivação.

 

AMMA: Relativo às aulas em tempos de pandemia, principalmente as crianças e os jovens estão preparados para ter aulas de música remotas? Como os seus alunos estão habituados a tê-lo em sala e estão eles em grupo também, presencialmente.

 

PM:Tem sido uma experiência que no início da pandemia não foi muito fácil porque o ambiente é outro, a distância da telecomunicação por vezes não funciona, não sei mas acredito que é preciso fazer um outro trabalho para preparar os alunos para este tipo de aulas, principalmente os alunos mais novos.

 

AMMA: Principalmente os do 1º Ciclo, das escolas?

 

PM: Sim, sim, as aulas acontecerem à distância como estavam a acontecer por exemplo aqui no concelho de Serpa, os alunos em ambiente de sala de aula e o professor entra via virtual, online, via videoconferência. Aí sim, os alunos estão ali no espaço e o professor não está, mas está em videoconferência. Os alunos, cada um em suas casas,  e é preciso fazer uma preparação para isso. Se for uma aula individual em que a aula é dada para um aluno somente, a aula funciona. Se for um grupo de alunos para a mesma aula, já não funciona. É preciso também fazer um trabalho apurado para que se consiga essa actividade on-line: a música, o som há aqui um delay que nem sempre funciona e por vezes depois desmotiva. Presencialmente o toque, agente coloca a mão e “faz assim”, “faz doutra forma”, e “vê aqui” e “estás a ver”… dificulta a observação do aluno, bem há uma série de coisas que é preciso estudar e preciso superar, tentar melhorar condições e vamos ver o que é que vai resultar. Só sei que para já tiro uma conclusão, uma série de grupos corais que estavam em actividade não voltarão a exercer funções. E isso é preocupante.

 

AMMA: Ou seja a pandemia já está a levar a esse ponto?

 

PM: A pandemia está a levar para que certos e determinados grupos corais que já funcionavam com alguma dificuldade provavelmente não vão voltar ao activo.

 

AMMA: Que desafios tem em mente para realizar após ser levantado o confinamento e que os artistas possam voltar aos palcos de uma forma mais ampla?

 

PM: Pois… eu não sei quando é que isso vai acontecer, era importante que fosse para já. Mas os desafios era para já tentar reduzir um pouco o número de pessoas em palco, por exemplo é uma preocupação que tenho tido, é tentar chegar com um trabalho novo, é tentar levar e esse é o maior desafio, levar a música que eu considero mais genuína aos palcos, porque até aqui havia muito entusiasmo por parte dos músicos e dos cantadores inovar. Fundir a música da tradição com a música mais erudita, com a música mais elaborada, com outros tipos de instrumentos e outros arranjos e eu estou a pensar fazer o contrário, é aproveitar toda esta motivação e entusiasmo e procura da música da tradição e o desafio é esse, levar a música como ela é na sua realidade cultural para os palcos. A viola campaniça a acompanhar o cante e ou cante por si propriamente dito. Porque se isso não acontecer, não é marcar a diferença, e eu se calhar estou a desvendar um segredo que poderia não o querer fazer. Vai marcar a diferença no sentido de que, até aqui a maioria das pessoas têm querido ser diferentes. Vou cantar acompanhado de um piano, vou cantar acompanhado de uma orquestra, vou fazer um arranjo para uma moda a solo e vou para a televisão. A minha preocupação é manter a origem. Manter a base que todas essas pessoas tiveram, mas que ignoram. Porque nós não devemos ignorar a base, nós não devemos nunca deixar de ter a fonte, porque se um dia a fonte secar, tudo o resto também não existe e a minha preocupação é precisamente essa. É continuar e levar para os grandes palcos, fazer ver que na verdade tem que ir para a televisão o que é o verdadeiro cante. Eu para ir para a televisão não tenho que fazer um arranjo, não tenho que criar uma orquestra para levar uma moda para a televisão. Eu tenho que ter a capacidade e de ser aceite na televisão com a moda como ela é, pura e dura. E só a partir dai a aceitação já não é a mesma. Mas a conquista maior é de conseguir conquistar público para nas grandes salas de espectáculos, saber querer e ir ouvir aquilo que é a música tradicional. Quando ela for bem feita e quando ela for cantada e apresentada com todas as regras que tem, ela tem tanta qualidade ou mais ainda que qualquer arranjo que possa ser feito.

 

AMMA: Como músico, que emoção sente num palco a dedilhar a sua viola ao peito e rodeado de vozes a entoar o cante?

 

PM: Bem, é uma emoção e é um entusiasmo, é um conquistar de objectivos, é uma série de sentimentos que se juntam que na verdade é ali que se percebe… como por exemplo eu levei os meus projectos a grandes salas como o CCB, como o Tivoli, como o Kennedy Center em Washington, como tantas outras salas enormes do país e nem só, no Rio de Janeiro e por aí fora. O facto de chegar a lugares deste género somente com uma viola campaniça a peito e fazer com que essa viola campaniça possa fazer o público vibrar, para nós é atingir uma conquista planeada lá muito atrás, um sonho tido lá muito atrás que é, se este instrumento se consigo estar a cantar esta realidade musical e cultural aqui, então eu estou a dar a conhecer ao mundo, porque qualquer uma dessas salas que recebeu a nossa música esgotou e quando uma sala esgota é na verdade existe algo que motiva as pessoas a ir e então o sentimento é de satisfação é de um orgulho enorme, não só por mim, mas por uma região uma recompensa aos meus mestres e uma satisfação enorme de conquistar público para aquilo que nós fizemos. É por isso mesmo que a minha intensão no futuro é precisamente continuar desta maneira. Mas sim nos mesmos passos culturais mas com a música e a cultura pura e dura.

 

AMMA: No final do dia o balanço destes desafios todos é positivo e vale a pena o trabalho? Sente que o seu esforço foi gratificante?

 

PM: Às vezes não. Às vezes fico a pensar se devo ou não continuar, porque muito que não queira, por muito que seja simples a nossa forma de estar, a minha maneira de estar e honesta, é importante sempre e é preciso o reconhecimento daquilo que se faz, e depois desmotiva quando nós queremos que se abram portas para espalhar aquilo que é nosso, e aqueles que deviam abrir portas, acabam por fechá-las. E perceber isso às vezes, chego ao fim do dia e apetece dizer assim: “amanhã já não faço isto”, “amanhã vou mudar de vida”, “amanhã vou fazer outra coisa”. Porque na verdade incomoda ver grupos corais com dificuldades, incomoda ver cantadores que estão cada um por si desmotivados com esta realidade, incomoda ver depois as redes sociais a vibrarem por uma deturpação do cante, as redes sociais a vibrarem por uma realidade que não é sua. E aquilo que está a acontecer hoje é deturpar o cante, deturpar a viola campaniça, não valorizar os mestres aqueles que são os detentores do saber, e pouco ou nada fazer para saber se estão ou não a funcionar os grupos corais. Então mais uma vez e uma vez mais percebo que na verdade a Internet ajudou o cante, a Internet ajudou a promoção e divulgação da nossa cultura e do cante, mas também tem o efeito perverso, em que aquilo que nós vimos na Internet não corresponde áquilo que é a realidade, e é “fogo de vista”, é simplesmente fantochada, não corresponde à realidade. E a maioria do que aparece aí e do que é dito nas redes sociais na televisão, nas rádios, na prática não é bem assim.

 

AMMA: Que progressão gostava ainda de ver na divulgação da viola campaniça? Mais alunos…

 

PM: Mais alunos, mais interesse no conhecimento daquilo que é culturalmente o instrumento,  menos ambição e egocentrismo por parte de toda esta movimentação que há para a viola campaniça e para o cante. Porque há aqui uma série de gente que só se sente bem, e só estão na viola campaniça porque querem ter protagonismo, porque usam a viola campaniça para poder ganhar dinheiro… então eu gostava ver muita gente a tocar a viola campaniça mas por paixão, por gosto aquela tradição e aquela arte, não com o objectivo de ser artista ter protagonismo e não com o objectivo de sim ganhar a vida a partir dali. É claro que é possível ganhar a vida tocando a viola campaniça porque os concertos são pagos, e quem faz concertos recebe por isso. Mas não devia de ser esse o objectivo que leva certas e determinadas pessoas a tocar a viola campaniça. Acho que devíamos respeitar mais a tradição e fazer tradição por gosto e paixão por ela e não por outro e qualquer tipo de interesse. Era isso que gostava de ver no futuro.

 

AMMA: O que gostava de dizer aos nossos leitores, aos que já conhecem o seu trabalho e aos que estão a conhecê-lo agora?

 

PM: Gostava de dizer que por vezes na verdade posso não ser bem entendido com a força das palavras, mas sou o mais sincero possível e dizer que para mim é a cultura que me move é as origens e a paixão que eu tenho por aquilo que é nosso que faz com que eu possa desde há uma série de anos dedicar a minha vida toda completamente à música da tradição e dizer que, sim a paixão por aquilo que é nosso,  eu primeiro aprendi a gostar daquilo que é meu e depois foi aprender a gostar daquilo que é dos outros.

 

Texto: Pedro MF Mestre
Fotos: André Roque

 

 

Zélia Paulo Silva, fotógrafa de embarcações típicas do Tejo

 

Todos os povos que estão em contacto com um rio ou o mar têm muitas histórias para contar da sua tradição com as águas que os rodeiam. Há sempre alguém que regista estes meios e de várias formas os imortaliza quer seja de forma verbal, escrita ou artística. A fotografia veio ajudar a contar histórias na sua vertente documental e artística.

 

De uma forma geral nestas povoações em tempos surgiu a necessidade de desenvolver as embarcações que aproveitam os recursos marítimos ou fluviais para facilitar as suas necessidades de transporte de pessoas e bens entre os vários locais.

 

Portugal é um país exemplo nessa uma forte tradição, descobrindo grande parte do mundo via marítima no século XVI desenvolvendo navios com a tecnologia de ponta para a época assim como os respectivos instrumentos de navegação. Os registos de então permitem aos investigadores de hoje reproduzir essas embarcações como os seus instrumentos aliados à orientação da navegação no mar.

 

Em qualquer ponto do país onde haja uma população com tradições de embarcações, sejam piscatórias, de transporte, ou de lazer, têm as suas com particularidades próprias dessa mesma região,  acabando pelo país ter um sem fim de exemplares todos eles diferentes conforme as necessidades das suas povoações, todos eles são belos e com muita história.

 

 

Zélia Paulo Silva, é uma fotógrafa que tem um vasto portefólio de embarcações típicas do Tejo, usadas pelas povoações entre Vila Franca de Xira e Lisboa.

 

A origem desta fotógrafa é da zona das Caldas da Rainha tendo a sua ligação com os meios aquáticos sido sempre uma constante, tendo crescido entre uma Lagoa e o mar.

 

A sua paixão pela fotografia começou cedo, e diz que acredita «que o olhar e o sentimento usado em cada uma das fotografias fazem toda a diferença».

 

AMMA: Sempre teve uma ligação à água e paixão pela fotografia. Quando juntou as duas?

 

Zélia Paulo Silva:  Cresci entre a Lagoa de Óbidos e a Foz do Arelho, o elemento água sempre esteve muito presente, juntei os dois com a compra da minha primeira máquina fotográfica, uma HP analógica...andaria na casa dos 20 anos…gastava a mesada nas revelações.

 

AMMA: Quando diz que a fotografia para si é encarada de forma simples sem ser como um Hobbie mas sim um estado de espírito, o que significa isso em termos práticos?

 

ZPS: Significa a abstração de tudo, os meus momentos… por trás da lente o meu universo paralelo, as minhas vivências.

 

 

AMMA:  Quando veio residir para a zona de Vila Franca de Xira, começou a ter mais contacto com o rio, estando numa zona privilegiada sente as comunidades, naquela altura, muito fechadas, como a Póvoa de Santa Iria, Alhandra… contudo consegue que a integrem no seu meio. Que curiosidades tem sobre elas…? O seu meio fechado era por timidez, desconfiança?

 

ZPS: Demorou muito tempo mesmo para ser aceite com par, os avieiros são uma comunidade fechada, não diria timidez nem desconfiança é a maneira de ser deles, sobretudo os mais antigos…também não estavam habituados a ver uma miúda tão curiosa e tão faladora, foram necessárias várias abordagens, passar horas a vê-los trabalhar nas redes antes de me deixarem fotografar…ainda hoje têm alguma resistência às fotografias.

 

AMMA: Conseguiu registar histórias e o modo de vida delas? Algum facto curioso que gostasse de partilhar? A dureza e a sua pureza teve sempre ligação ao rio e as bateiras?

 

ZPS:Mais a fotografia do que as histórias se bem que existem levantamentos das mesmas muito interessantes  feita por historiadores e entusiastas, recordo-me assim de repente de um Boletim Informativo ”Rosácea” da Associação Comercial e Empresarial de Santarém com quem também participei eles com o levantamento das histórias eu com algumas fotografias mas sim… uma curiosidade gastronómica, fataça frita na telha, tornado prato da gastronomia Tradicional Ribatejana… nunca eu pensei que aquele peixe fosse comestível….outra…a linguagem avieira, uma dialética muito própria que para quem ouve muitas vezes só o escutar com muita atenção não chega…Expressões como “abicar”, “maracha”,”rabeiras”.

 

AMMA: Como foi a sua participação nos encontros Avieiros do Instituto Politécnico de Santarém? Em que aspecto tiveram impacto na sua vida?

 

ZPS: Sou muito curiosa e em conversa com os pescadores falaram-me do projecto que estava a ser desenvolvido pelo IPT,  de promover e elevar a cultura avieira a património nacional. Daí a ter entrado em contacto com eles e a começar a participar  em alguns dos encontros  foi um passo. Proporcionaram-me maior abrangência, o contacto com outras comunidades pude visitar outras Aldeias Ribeirinhas…Caneiras, Escaroupim, Patacão. Realidades semelhantes mas com as suas particularidades.

 

AMMA: Quando começa a fazer um registo fotográfico, tem em mente o legado que representa o seu trabalho?

 

ZPS: Curiosamente não, talvez agora já tenha mais essa percepção mas inicialmente não…fazia pelo gosto, pela identificação com os mesmos, pelas embarcações de cores alegres, magnificamente adornadas, pela beleza do desfile no rio.

 

AMMA: Depois desta fase começa a tomar interesse em mais tipos de embarcações. Como foi esse desenrolar dos acontecimentos? Que pormenores a chamava mais à atenção em cada uma delas?

 

ZPS: Sim via no rio outras embarcações de madeira, maiores, com mastros, imponentes e achava curioso…o primeiro impacto foi com o varino Liberdade da Câmara de Vila Franca de Xira com traços de barco moliceiro…amarelo… gigante…lindo…foi paixão á primeira vista.

 

 

AMMA: A um determinado momento conhece o Professor Fernando Carvalho Rodrigues, de uma forma um tanto ou quanto engraçada. Como é que aconteceu?

 

ZPS: Quis o acaso que me cruzasse com o Professor Carvalho Rodrigues numa regata em Vila Franca de Xira, sem saber do que se tratava fotografei a regata e o Professor a bordo do varino Liberdade, na altura fazia parte de um site de fotografia e publiquei a imagem. Pouco tempo depois recebi um email do grupo de imagem do mesmo a pedir o contacto e pensei estou metida em trabalhos… direitos de imagem…mas não apenas amavelmente o professor me contactou para pedir a fotografia e me convidar a participar numa Regata, isto em 2008.

 

AMMA: Após o “susto” que apanhou, passou a ser frequente a sua participação nas actividades da Marinha do Tejo com as suas embarcações típicas. Como é para si trabalhar ao lado do Professor Fernando Carvalho Rodrigues? O que mais de interessante reconhece nele?

 

ZPS: Mais do que um visionário, uma pessoa solidária para com o próximo…faltam-me as palavras para descrever o apreço que tenho pelo mesmo… contudo quanto à Marinha do Tejo não esqueçamos a sua ligação à Armada bem como o seu apoio, porque a Marinha do Tejo é por Lei um Pólo vivo da mesma…

 

AMMA: Das embarcações da Marinha do Tejo, qual é a sua favorita para fotografar?

 

ZPS: Todas primam pela diferença, pelas características, pelas cores e pinturas, pelas velas  pelos mestres e arrais portanto não tenho preferências. Gosto de as sentir como um todo.

 

 

AMMA: Fazer a fotorreportagem do Dia da Marinha do Tejo em que as embarcações estão  muito aprimoradas para esse dia de festa, proporcionando uma mancha bonita ou  fotografar a Real Regatta das Canoas em que elas estão em competição, qual lhe dá mais prazer fotografar e de qual gosta mais do resultado final do seu trabalho?

 

ZPS: São cenários diferentes…o dia da Marinha do Tejo permite o contacto com os mestres, arrais, proprietários das embarcações…o assinar do livro da Marinha do Tejo, a Real Regatta encerra o ano náutico, deixa-nos o saudosismo para um regresso breve, a adrenalina da competição saudável e ambas a comunhão com o rio.

 

AMMA: Depois de começar a lidar com os proprietários e arrais destas embarcações, as pessoas que as reparam e alguns que ainda as constroem, o que retém dos seus ensinamentos e que registos fotográficos costuma fazer?

 

ZPS: Retenho toda uma cultura em vias de extinção e que só por garra, teimosismo, persistência e gosto sobrevive… retenho história de vidas de pessoas incríveis e vivências impares…retenho a amizade que me votam independentemente se estou com a máquina fotográfica ou não.

 

 

AMMA: Aqui criou amigos, que relação tem com estas famílias que trabalham nestes ofícios?

 

ZPS:  Sim amigos, daqueles que mesmo não convivendo diariamente ficam…acabo por me entrosar com algumas famílias…filhos, netos, bisnetos, é algo muito enriquecedor…na Marinha do Tejo são 13 anos de convivência.

 

AMMA: Para além do trabalho de fotorreportagem e de fotografia documental nestes eventos, faz fotografia artística. É aqui que entra a componente de “estado de espirito”?

 

ZPS: Também, acho que se complementam…totalmente diferente, mais detalhe, pormenor, outras simbologias…impactos diferentes, contrastantes, mas com igual peso no estado de espírito. Participo com alguma frequência nas visitas guiadas aos cemitérios de Lisboa promovidas pela Camara Municipal de Lisboa e orientadas por historiadores, a dor no feminino, a simbologia, a história por detrás de um túmulo, a continuidade pós vida é algo que me fascina.

 

AMMA: Quando publica fotos de embarcações costuma associar um poema, ou um tema musical. São ambas as artes a falar umas com as outras?

 

ZPS: Pode ser uma interpretação sim mas o que me leva a fazê-lo é o gosto que tenho por essas artes, não consigo dissociar música, de poesia da fotografia…lá está complementam-se…o dito estado de espírito.

 

AMMA: Cada foto que faz ou cada reportagem que publica, sente mais uma missão cumprida no trabalho de eternizar estes costumes que estiveram na eminência de acabar quando surgiram alternativas à sua utilização?

 

ZPS: Parte da minha missão cumprida, porque de alguma forma sinto-me parte integrante nesse eternizar…uma gota de água mas que também tem a sua importância…não sou a única gota mas sinto que faço parte do oceano.

 

AMMA: O que gostava que se fizesse ainda mais em Portugal sobre fotografia documental e a da preservação deste tipo de património?

 

ZPS: Felizmente cada vez mais temos essa documentação, a fotografia documental como ferramenta de preservação da memória. O conhecimento, o inventário, a salvaguarda, a conservação, a valorização, a divulgação do património. Termos acesso ao passado ou, mais precisamente, a uma ideia de passado projetada para o futuro….acima de tudo dar continuidade.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: arquivo de Zélia Paulo Silva

 

 

Francisco Pestana, nascido para pintar

 

 

O artista plástico Francisco Pestana, natural de S. Romão, Vila Viçosa, sempre teve gosto e aptidão para o desenho já demonstrado nos seus tempos de criança. Na ausência do papel até o chão servia para exprimir o seu talento.

 

Entretanto Francisco Pestana não seguiu a via das artes, algo que deixou adormecer na sua vida até ingressar no serviço militar, nas Tropas Paraquedistas. Aqui na instituição começou a desenvolver novas técnicas de desenho e retrato de forma autodidacta.

 

A exigência militar faz com que cumpra uma comissão. De Tancos para Angola já no final da década de 60, inicia um curso de desenho e pintura por correspondência, desenvolvendo desenhos que ficavam expostos na caserna da sua companhia. Esta é uma das fases que o marcou  também em termos artísticos.

 

Ao regressar a Portugal, o artista decide aprofundar os seus conhecimentos e técnicas frequentando aulas de desenvolvimento das artes na Escola de Artes António Arroio em Lisboa.

 

Teve como mestres os pintores Jaime Silva, Francisco Aríztia, e Carlos Henriques.

 

Francisco Pestana domina várias técnicas de pintura, sendo que a sua preferida e grande paixão a Aguarela.

 

Em termos de estilos, confessa que não tem um estilo favorito, é o que lhe apetecer pintar, seja retrato, locais, flores e natureza.

 

Os seus trabalhos já passaram por várias galerias de arte por todo o país. De forma permanente tem presença no Museu de Benavente, Museu de Lagoa, Parque Natural de Sintra-Cascais, Instituto Nacional de Habitação, Comando da Área Militar de S. Jacinto, B.E. Paraquedistas Tancos, Câmara Municipal de Vila Viçosa e em diversas coleções particulares.

 

Quanto a exposições temáticas e temporárias tem um leque muito mais abrangente de locais por onde as suas pinturas já passaram em território nacional.

 

Inclusivamente o pintor já foi premiado na V Mostra de Artes Plásticas de Salvaterra de Magos, e no 1º Concurso de Pintura dos 50 Anos de Para-quedismo na Área Militar de S. Jacinto.

 

 

AMMA: A arte de desenhar e de pintar já nasceu consigo? Na sua infância já desenhava. Quais eram temas que mais gostava de exprimir?

 

Francisco Pestana:  Desenhava o que via em meu redor , os pássaros, as flores, tudo o que se relacionava com a vida no campo.

 

AMMA: O desenho no chão era uma das suas técnicas mais utilizadas? Porquê?

 

FP: Porque não tinha outros materiais .

 

AMMA: O que o desmotivou para estar alguns anos sem se dedicar às suas artes?

 

FP: A necessidade de ajudar a família com o trabalho no campo e a falta de contacto com as artes .

 

AMMA: Retomou a pintura já na Escola de Tropas Paraquedistas. Foi por influência de alguém?

 

FP: Sim , conheci  lá um camarada de armas que fazia retratos  por encomenda e viu que eu também tinha o gosto e jeito para desenhar e incentivou-me a recomeçar .

 

AMMA: Já em Angola frequenta um curso de pintura por correspondência. Naquela conjuntura de guerra e tendo em conta a época em que estava como é que isso era possível?

 

FP:  Nos momentos de descanso, quando nos encontrávamos na caserna li numa revista um anúncio de um curso de desenho e pintura por correspondência, no qual me inscrevi e a partir daí desenvolvi as aulas até regressar a Lisboa.

 

 

AMMA: A sua galeria era a caserna da companhia. Os seus camaradas de armas incentivavam-no para continuar a desenhar e pintar? Que comentários faziam?

 

FP: Alguns até me pediam para lhes fazer retratos dos familiares mas o tempo era pouco e as oportunidades também.

 

AMMA: Teve envolvido no vosso Jornal da Caserna. Como é que surgiu a ideia e como é que o dinamizavam?

 

FP: A ideia foi de um nosso camarada, José Apolinário, que também se inscreveu nesse mesmo curso. Desenvolvíamos ideias entre nós, com o conhecimento e agrado dos nossos superiores .

 

AMMA: O seu serviço militar foi algo que o marcou muito. A vossa companhia continua a reunir-se com regularidade? Recordam os vossos momentos na guerra e algumas curiosidades da vossa passagem por Angola?

 

FP: Sempre com muitas histórias para contar e recordar  os momentos lá passados principalmente os que nos marcaram pela positiva.

 

 

AMMA: A pintura que fez alusiva aos 50 anos das Tropas Paraquedistas saiu-lhe do coração? Foi emotivo e espontâneo, ou conseguiu idealizar o que queria fazer antes de começar?

 

FP:  Foi criativo e espontâneo baseado nas imagens por nós vividas que estão sempre na   minha mente.

 

AMMA: Fale-nos um pouco sobre essa pintura, e como foi a entrega dela à vossa “Casa Mãe” dos Paraquedistas.

 

FP: Foi emotivo tanto da minha parte como de todos os Paraquedistas  que assistiram a essa Homenagem.

 

 

AMMA: Disse-nos que não tem um estilo definido, é muito dinâmico. Entre retrato, paisagens naturais, flores e cidades, o que mais lhe dá prazer pegar num acrílico ou uma aguarela e materializar o que tem em mente?

 

FP:   Depende do meu estado de espirito no dia em que me jogo aos pinceis mas em geral  o meu gosto vai sempre mais para trabalhos em Aguarela.

 

 

AMMA: O que o leva a gostar mais de trabalhar com o acrílico e a aguarela?

 

FP:  Tive de desistir de pintar a óleo, por motivos de saúde, e substitui por pintar a acrílico mas a Aguarela  é como disse um Mestre  “O Óleo é muito obediente, a aguarela é mais difícil de controlar, é desafiante. Pintar a óleo é como treinar um cão mas pintar a aguarela é como treinar um gato.”

 

AMMA: Costuma participar mais em exposições pessoais ou coletivas?

 

FP:  Apesar de gostar de fazer exposições individuais, neste momento estou a participar mais em coletivas.

 

AMMA: Qual é o formato que mais gosta e porquê?

 

FP:  Em geral em aguarelas uso formatos entre 30 x40 cm e nos acrílicos uso vários formatos.  É mais prático mesmo para emoldurar e expor .

 

 

AMMA: Nas exposições fixas foi a convite das galerias?

 

FP: Sim, geralmente assim funciona nesta área .

 

AMMA: Como é para si correr o país a mostrar a sua arte?

 

FP: Gratidão e orgulho neste meu percurso mostrando a minha arte .

 

 

AMMA: Nos concursos que participou já foi premiado por duas vezes. Conte-nos um pouco dessas experiências.

 

FP:  Muito gratificante pelo reconhecimento do meu trabalho e obriga-nos a exprimir e por a nu os nossos sentimentos.

 

AMMA: Que projetos tem para o futuro no âmbito das artes? Além de continuar a pintar, pretende passar a alguém os conhecimentos adquiridos?

 

FP:  Já o estou fazendo, dando aulas de pintura .

 

AMMA: O que quer dizer aos nossos leitores que estejam num patamar de indecisão no ingresso à vida de artista plástico?

 

FP: Que continuem a sonhar e a voar no nosso universo porque a Arte é Cultura. Desistir Nunca!

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: Francisco Pestana

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresentando Patrícia Catarino Afonso e a pastelaria sem Glúten

 

 

“Sem Glúten Cake Design”, é um projecto de Patrícia Catarino Afonso que se dedica à arte da pastelaria de forma a que todas as pessoas possam apreciar os mais apetitosos bolos principalmente os intolerantes ao glúten e lactose, que muitas vezes só os conseguem apreciar com o olhar.

 

Este interessante projecto começou quando a própria Mestre pasteleira de 41 anos descobriu a sua intolerância à proteína do glúten, e com a sua persistência e criatividade consegue converter as receitas da pastelaria tradicional em “bolos para todos”.

 

Como “filho de peixe sabe nadar”, Patrícia é filha de um conceituado Chef de cozinha de Cascais e sempre acompanhou a carreira do seu pai na arte da confecção alimentar, o que a inspirou.

 

Patrícia após ter terminado o ensino secundário ingressou no mercado de trabalho na área da restauração e por aí se manteve durante 10 anos.

 

Entretanto quando havia festas, almoços ou jantares de amigos ela levava sempre um bolo. Com a excelência do seu trabalho foi desafiada para ser bloguer o que aceitou e evoluiu para a profissão que exerce actualmente, a pastelaria de bolos sem glúten.

 

Vamos conhecer a Patrícia e o seu projecto.

 

 

AMMA: A Patrícia já estava ligada à pastelaria antes de começar o projecto “Sem Glúten Cake Design”. O que mudou quando descobriu que também era celíaca e tinha que se adaptar a uma nova realidade?

 

Patrícia Catarino Afonso:Quando descobrimos que somos celíacos entramos num mundo completamente diferente, um mundo em que nos sentimos perdidos no início. Quase tudo o que existe no mercado tem glúten e exige da nossa parte uma leitura rigorosa dos rótulos e muita informação para aprender. Antes deste diagnóstico fazia bolos normais, agora só tive que os adaptar ao meu mundo sem glúten.

 

AMMA: De que tipo de doces é composto o seu portefólio?

 

PCA:  Desde bolos de casamento, bolos para festas, até bolachinhas para um simples chá com amigas. E eu estou sempre a testar novas receitas e a abrir o leque de variedade. Um celíaco sente falta daqueles doces que comia antes mas agora não pode por causa da doença. Basicamente faço os bolos que os clientes me pedem.

 

AMMA: O que muda num bolo sem glúten? É muito diferente de um bolo da pastelaria tradicional?

 

PCA: Mudam as farinhas e todos os ingredientes que eventualmente possam conter glúten. Isso exige da minha parte um controlo rigoroso nesses produtos. Para lhe dar um exemplo, para um bolo faço uma mistura de três farinhas diferentes para obter a textura e a suavidade que a farinha com glúten proporciona. Em relação ao sabor são aprovados pelos meus amigos não celíacos; sem saberem estão a comer um bolo glúten free. E quando lhes conto, ficam agradavelmente surpreendidos.

 

AMMA: Esse processo de adaptação das receitas foi complicado e desafiante? Em que aspectos?

 

PCA: A farinha de trigo proporciona um bolo suave, perfeito. A adaptação no início foi complicada. Houve muitas experiências mal sucedidas. E foi por tentativa e erro que fui percebendo a química existente entre os diferentes ingredientes. 

 

AMMA: Qual foi a reacção dos seus clientes ao novo tipo de pastelaria que passou a fazer?

 

PCA: Eu tenho clientes celíacos, diabéticos, com alergias alimentares ou mesmo clientes Vegan e para eles seria complicado comer um bolo normal. E eu adapto as receitas a esses clientes. Já fiz bolos sem ovos ou sem açúcar e ficaram perfeitos. E esses clientes ficam mesmo felizes e fazem questão de me agradecer e recomendar.

 

AMMA: Nota-se alguma diferença no sabor e textura em relação à receita tradicional?

 

PCA: Segundo a opinião de quem os prova, não notam diferença nenhuma. Aliás quando me convidam para uma festa, eu levo sempre bolos e estes são sempre os primeiros a desaparecer. Há sempre aquela curiosidade de provar um bolo sem glúten e ver se é igual. E aprovam sempre.

 

AMMA: Fala-se muito dos perigos da contaminação cruzada, o que é e como se pode evitar que ela ocorra?

 

PCA:Contaminação cruzada é a transferência acidental de glúten para superfícies ou alimentos. Por exemplo, a quinoa é naturalmente isenta de glúten mas pode ter sido embalada numa fábrica onde embalam cereais que contém glúten. E aí ela fica contaminada com glúten e imprópria para consumo por parte de um celíaco. Outro exemplo prático de contaminação cruzada que não tem a ver com a pastelaria, podem ser as batatas fritas. A batata não tem glúten, mas se for frita num óleo que tenha sido utilizado para fritar por exemplo panados, as migalhas de pão ficam soltas no óleo e ao fritar a batata estamos sujeitos à contaminação cruzada. Na minha cozinha tudo é feito sem glúten e no ato da compra de produtos, faço questão de ler todos os rótulos para garantir que essa contaminação não exista de maneira nenhuma. Os meus clientes têm total confiança e segurança.

 

AMMA: O seu pai foi um conceituado Chef de cozinha de Cascais, ele influenciou-a na arte da confecção? Além de cozinheiro ele também fazia pastelaria e doçaria?

 

PCA: O meu pai, como chef de cozinha teve influência na minha escolha. Ele fazia doces em casa para as nossas festas. Aliás, a minha Tarte Algarvia e a Torta de Laranja são algumas das receitas que ele fazia e que eu guardei até hoje.

 

AMMA: Tem memórias dessa altura? Algo de curioso que nos queira contar? Uma peripécia…

 

PCA: Lembro-me de ter à volta de 5/6 anos e estar em cima de uma cadeira na mesa da cozinha a vê-lo fazer croquetes e rissóis. Ele deixava-me moldá-los e ensinava como fazer.  Quando anos mais tarde fui fazer por minha iniciativa, correu muito mal. Isto porque não sabia a receita, portanto, tive que ir aos apontamentos dele e aí já correu bem melhor.

 

AMMA: Ele deixou à família os seus apontamentos de forma que a Patrícia e os seus irmãos pudessem disfrutar do seu legado?

 

PCA: Sim todos temos livros e receitas que ele deixou e que vamos trocando entre nós. É uma forma de perpetuar a sua memória e fazer o que ele mais gostava: cozinhar.

 

AMMA: Na sua actividade utiliza muito os robots de cozinha. Eles ajudam a fazer uma parte do trabalho. Qual?

 

PCA: Para mim os robots de cozinha são essenciais, tenho dois e utilizo-os ao mesmo tempo às vezes. Ajudam-me a fazer molhos e cremes sem ter medo de os queimar, faço massas no ponto ideal e outras coisas que me poupam imenso tempo.

 

AMMA: Contudo o seu toque pessoal está lá sempre visível. Onde?

 

PCA: Faço muitas receitas “a olho” e por isso nunca faço dois bolos iguais. Às vezes ponho uma raspa de limão ou uma essência qualquer e fica logo diferente. E na decoração também, cada bolo é único e personalizado para o cliente e é aí que ponho o meu toque pessoal.

 

AMMA: Por curiosidade, qual a reacção habitual de um cliente quando recebe uma deliciosa encomenda pela primeira vez? Fica de olhos arregalados?

 

PCA: Normalmente tenho por hábito enviar uma foto do bolo para o cliente mesmo antes da entrega. A reação é muito boa. Mas quando veem o bolo ao vivo ficam de olhos arregalados, especialmente as crianças. E para mim a melhor recompensa que pode haver é o brilho nos olhos e a felicidade de uma criança celíaca ao ver o “seu bolo”. Valeu mesmo a pena todo o esforço e todas as horas gastas nesse bolo.

 

AMMA: O Projecto “Sem Glúten Cake Design” ajuda a superar a exclusão dos doentes celíacos e intolerantes ao glúten no acesso à tradicional pastelaria. Que projectos tem em mente para um futuro próximo? Esta Pandemia que estamos a atravessar trouxe-lhe novos ensinamentos e adaptação?

 

PCA: Sim se formos ver são poucas as opções para um celíaco. Eu por exemplo ando sempre com o meu kit de emergência (como lhe chamo) que é basicamente uma lancheira com comida sem glúten e que me acompanha para todo o lado. Com este projeto consigo proporcionar uma festa completamente isenta de glúten ou uns bolinhos para comer no dia a dia. Quanto a projetos tenho a longo prazo mas ainda é cedo para falar. Por enquanto o meu foco é aprimorar a pastelaria sem glúten com mais variedade de escolha para o cliente. Com esta pandemia vi a importância de se conseguir encontrar a opção sem glúten. Eu avisei os meus clientes que ia fazer uma pausa por tempo indeterminado enquanto durasse o covid-19. Mas as encomendas continuaram e tive mesmo que reabrir e continuar com as entregas. Eram momentos tão especiais que eu não consegui deixar passar. Também me coloquei à disposição para entregar pão e bolos para profissionais celíacos que estivessem na linha da frente. Acho que todos nós aprendemos alguma coisa nestes meses.

 

AMMA: Que mensagem quer deixar aos nossos leitores aos celíacos e não só?

 

PCA: Que sejam felizes. Para um celíaco felicidade é poder comer sem medo. E em cada cliente meu, fica um amigo. Partilhamos experiências em cada entrega e isso é muito bom. Trabalho com o coração e isso deixa-me feliz.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: Patrícia Catarino Afonso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos conversar com o Chef Carlos Madeira

 

 

O Chef Carlos Madeira é Presidente da Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal (ACPP) e Chef executivo na Unilever Food Solutions (UFS).

 

A ACCP nasceu em 1977 e tem como missão o ensino profissional de cozinheiros e pasteleiros, assim como promover cursos de especialização temáticos, vocacionados para formandos com qualquer nível de conhecimentos.

 

Ambos são feitos pelos mais conceituados profissionais na área alimentar todos eles certificados. A missão da Associação não se fica pela formação, mas pretende manter um contacto próximo entre os profissionais do ramo.

 

A UFS fazendo parte uma empresa multinacional de bens de consumo, tem nesta área produtos e serviços de “chef para chef”, ou seja com os produtos alimentares vocacionados para a área profissional de restauração e hotelaria onde há a preocupação de demonstrar aos profissionais da área a forma de como podem inovar e optimizar os seus pratos com este portefólio de produtos com receitas sugeridas pelo Chef. Carlos Madeira e sua equipa: os Chef’s Pedro Gaspar e David Silva.

 

Vamos agora falar com o Chef Carlos Madeira.

 

AMMA: Quando lhe surgiu o interesse de entrar no mundo da culinária? Teve influência de alguém?

 

Carlos Madeira: Além das influências familiares que fazem parte das nossas vidas diretamente, (quem não tem na memória um prato da mãe ou da avó) foi um misto de vontade de ter uma profissão prática e em que a rotina não fosse um perigo! Quando terminei o 12º ano tinha duas hipóteses (criadas por mim!) de futuro profissional: ser advogado ou ser cozinheiro. Fui assistir a alguns julgamentos no antigo tribunal da Boa-Hora, em Lisboa e decidi ser cozinheiro!

 

AMMA: Em termos profissionais onde deu os seus primeiros passos? E como evoluiu a sua carreira?

 

CM: Fiz o curso de Cozinha/Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, terminei como melhor aluno do meu curso e ainda a festejar fui trabalhar para Paris, Meca da gastronomia na altura! Durante o curso fiz estágio de 4 meses no Hotel Palácio no Estoril (curiosamente o Chef Orlando Esteves era presidente da ACPP) e quando regressado a Portugal vim trabalhar para um restaurante de Luxo (Michel), no castelo de S. Jorge. De seguida fiz a abertura do Restaurante-Escola Michel, na Gare Marítima de Alcântara. Em 1990 fui convidado para ser professor na mesma escola onde fiz a minha formação, onde estive até 2002.

 

AMMA: Como surgiram as suas actividades tanto na ACPP como na UFS? Como é o seu dia-a-dia em ambas?

 

CM: A minha ligação com a ACPP tem muito a ver com a gestão e apoio nas áreas em que intervimos, nomeadamente formação e cursos de cozinha para futuros profissionais. Além destes temas, as competições internacionais onde a ACPP, através das suas “Equipas Nacionais de Competição Culinária” fazem também parte das minhas funções na ACPP.

Na UFS tenho a responsabilidade de estar entre as áreas de vendas e a de marketing, preparando tudo (escolha de produtos, desenvolvimento de produtos e de receitas) para que os produtos lançados no nosso mercado sejam bem aceites e utilizados pelos cozinheiros de hotéis e restaurantes. Além disso tenho no Pedro e no David as pessoas que me ajudam na formação das equipas de vendas, nossas e dos nossos parceiros. Além destas funções damos ainda apoio a todas as sessões de fotos, quer de UFS como de GALLO e da parte de retalho da Unilever Fima.

 

AMMA: No geral como vê a evolução da cozinha portuguesa nos últimos 30 anos?

 

CM: Como uma constante mutação em que as novas técnicas e os novos produtos, aliados a um cada vez maior conhecimento e preocupações de nutrição e sustentabilidade, fazem com que a cozinha portuguesa esteja ao melhor nível, sem esquecer a excelente qualidade que temos em produtos frescos e de cozinheiros!

 

AMMA: Nota-se que os profissionais de cozinha estão cada vez mais preocupados com a uma alimentação saudável para os seus clientes. O que tem sido feito nesse aspecto?

 

CM: Sim, os conhecimentos estão mais fáceis de ter e por outro lado os clientes estão mais exigentes, o que faz com que que os cozinheiros sigam na “onda” de uma alimentação cada vez mais saudável e sustentável. É nossa obrigação ter estes tópicos em conta cada vez que pensamos num prato. O equilíbrio é a melhor das medidas utilizadas em cozinha!

 

AMMA: Temos tido cada vez mais Chefs portugueses a ganhar a estrela Michelin, ao que se deve isso? Houve mudança nos critérios? Estamos mais expostos? Há mais excelência na nossa cozinha?

 

CM: É um misto de tudo isso, mas a evolução do turismo nas nossas cidades e a excelência de produtos e de bons chefs fazem o resto. Estamos muito bem nas nossas cozinhas, com boas técnicas e bons equipamentos, e principalmente com bases sólidas de conhecimento do que se passa nos melhores restaurantes e cozinhas do mundo. A internet permite, bem escolhidas as fontes, aumentar imenso o nosso conhecimento e qualidade.

 

AMMA: Sendo Portugal um país tão pequeno, quase 800 x 200Km, como temos uma variedade gastronómica tão rica? Desde o tipo de pratos típicos de cada região, ao queijo, pão, vinho e doçaria?

 

CM: Nós temos produtos excelentes e temos um mix entre produtos de mar e de terra como poucos. A nossa faixa marítima é das maiores e cima de tudo com uma qualidade imensa. A nossa dieta mediterrânica é especial, até porque nós somos um pais Atlântico!

 

AMMA: Uma das suas paixões é o moto-turismo pelas estradas nacionais e internacionais com amigos. Quando chega a hora da refeição habitualmente procuram a restauração tradicional local ou por norma escolhem a mais generalizada?

 

CM: Pedro geralmente as nossas viagens são uma mistura entre todas as vertentes do moto turismo: andar de mota, cultura (incluindo a gastronomia neste grupo). Ao almoço as refeições são mais rápidas e menos intensas para que a tarde seja mais tranquila, mas ao jantar procuramos sempre um bom restaurante, principalmente representativo do pais ou da região onde estamos

 

AMMA: Nas competições internacionais em que temos representantes de Portugal, como é que tem sido o sucesso da nossa cozinha e pastelaria lá fora?

 

CM: Temos um palmarés invejável, com muitas medalhas das 3 categorias, mas acima de tudo com o orgulho de ter nessas competições internacionais, e desde 1992, centenas de chefs portugueses que nunca se esquecem dessa presença e dos conhecimentos que daí trouxeram.

 

AMMA: Como Chef e presidente de equipas de júri explique-nos em que aspectos é que é avaliado um prato em competição. Vocês avaliam desde a fase de confecção e o resultado final, ou o vosso trabalho é focado no produto final, empratamento e o resultado do que foi confeccionado?

 

CM: Uma mistura entre inovação, técnicas apuradas, higiene, equilíbrio nutricional e custo. Até o desperdício pode ser avaliado. Obviamente o sabor é o item com maior peso (40%).

 

AMMA: Na UFS, desde 2013 até 2018 houve a competição anual “O Melhor Arroz de Portugal”, tendo de seguida evoluído para “O Melhor Sabor de Portugal” (MSP), com os pratos de arroz, carne e peixe confecionados pelos restaurantes finalistas em cada uma das áreas. A avaliação era um momento de grande concentração para o júri. Quais foram os critérios base na avaliação de cada prato?

 

CM: A avaliação no MSP era baseada nos critérios da World Association of Chefs Societies (WACS) pois os chefs envolvidos nas mesmas são júris acreditados da mesma (Chefs Paulo Pinto e António Bóia), além de mim próprio.

 

AMMA: Houve um caso curioso, o restaurante Estrela da Mó, em quase todas as suas participações era premiado. No que se destacava estilo de cozinha deles para serem imbatíveis?

 

CM: O sabor era brutal! Parece que ainda me lembro dos aromas e sabores das confecções deles. O produto era bom e as preparações eram simples, mas bem feitas, com os tempos de cozedura perfeitos. Portugal no seu melhor!

 

AMMA: Já assisti a alguns workshops e eventos dirigidos por si. Além da arte na gastronomia, tem também a arte de dirigir a sessão divertida e descontraída. Isso aprende-se? Como?

 

CM: Pedro o facto de ter dado aulas durante tantos anos é uma ajuda grande a que não tenha aquele aperto de ter uma audiência. A partir daí é o gostar imenso do que faço e de transmitir o conhecimento para outros. Sou defensor de que não deve haver segredos na cozinha, devemos partilhar. É isso que faço com quem trabalha comigo, sem segredos, a querer que eles sejam melhores que eu, para me desafiarem a mim a ser melhor, não estagnar!

 

AMMA: Que tipo de workshop/formação mais desafiante e imprevisível que lhe pediram para fazer?

 

CM: Fazer uma demo para 2000 médicos num congresso médico, pôr um chairman da Unilever que esteve uns anos a trabalhar em Lisboa, que era vegetariano, a arranjar um peixe grande (implicou escamar e retirar tripas e guelras), foram desafios interessantes…

 

AMMA: A cozinha é uma arte, cada cheftem o seu estilo, a sua “assinatura”. Do ponto de vista do cliente como é que é vista e classificada a arte na cozinha?

 

CM: Não querendo ser controverso, na minha opinião existe uma cozinha onde a arte é uma realidade, principalmente nos restaurantes com Estrela Michelin anteriormente mencionados, e aí sim a arte está no prato, e existem os outros sítios onde comemos sem pretensiosismos e com uma cozinha honesta, sem grande arte mas cheios de sabor e memórias.

 

AMMA: Como tem sentido o feedback da restauração neste período delicado. Espera-se superar os prejuízos provocados pelo Covid19 ou o futuro é muito reservado para o sector?

 

CM: Não sei responder a esta questão, mas sem dúvida serão tempos complicados, pois na nossa área restaurantes e hotéis simplesmente fecharam, e ainda não abriram, e muitos deles não irão reabrir, pois todas as restrições que são impostas, simplesmente não são possíveis de serem feitas. O futuro deverá ser diferente, devemos ter a capacidade de nos re-inventarmos e de apanhar novas maneiras de agir, take-away, delivery, catering em escritórios vizinhos poderão ser a forma de trabalhar.

 

AMMA: Que palavras quer deixar à restauração portuguesa (proprietários, chefs) e também aos jovens que estão a fazer os seus cursos para entrarem no mercado de trabalho?

 

CM: Coragem e constante adaptação ao que o mercado nos pede! E que é um orgulho estar convosco, seja na ACPP, seja na UFS. Contem comigo e com a minha equipa!

Obrigado Pedro pela tua lembrança, bem-hajas.

 

Agradecemos ao Chef Carlos Madeira por ter partilhado connosco um pouco da sua vasta experiência, desejamos melhores dias ao sector, aos profissionais a continuação da sua criatividade tanto para a aplicar em Portugal como também para levar mais longe a riqueza da nossa gastronomia com o seu serviço de excelência. Aos que estão a dar os primeiros passos nesta arte, que tenham carreiras promissoras.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Foto: cedida por Carlos Madeira

 

 

Rosa Vaz - Artista Plástica, Promotora cultural, Ilustradora, Poetisa ...

 

 

Vamos conhecer Rosa Vaz, Artista Plástica, Promotora cultural, Ilustradora, Poetisa. Nasceu em, Angola. Tem mais de 30 anos de carreira, vive em Portugal, em Braga.

 

De pai originário de Monção, no  Norte de Portugal e  mãe angolana de Huambo, Rosa nasceu em Malange, nos anos 60 e aí viveu a sua infância. Esta genética territorial, por assim dizer, reforçou os seus laços com o Norte de Portugal e as matrizes africanas que ficariam para lá do mar, depois da guerra civil de Angola, mas vivem e habitam no seu coração, no imaginário e no olhar sorridente que procura sempre o mar e o pôr do sol, como se de um equilíbrio intrínseco e de pele, se tratasse.

 

Durante a guerra na sua terra natal veio para Monção, onde estudou no liceu. Seguiu os seus estudos na Universidade no Porto tendo-se mudado mais tarde para Braga onde os concluiu e fixou a sua residência atá hoje.

 

A sua obra está  representada, através de trabalhos em pintura em acrílico, aguarela, Pintuta Textil, pintura Cerâmica, desenhos, murais cerâmicos, ilustração de livros e poesia.

 

Rosa Vaz participa em vários grupos de promoção e divulgação cultural, de forma especial ligados à Lusofonia, como o Projecto ARTÁFRICA da Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação de Escultura e Arte Contemporânea de Vila Nova de Famalicão, a ONGD Engenho e Obra, em Braga, o projecto Porlith (Portugal Litânia), o Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, entre muitos outros.

 

A actividade de escritora e poetisa, teve início muito cedo, participando com os seus escritos em jornais, colectâneas e actividades culturais. Nesta área tem representação na Antologia Universal Lusófona, editada pelo CEMD, e ainda no Guia de Autores e escritores de Angola, de Tomás Gavino Coelho.

 

Das reminiscências de África, desse mundo colorido, alegre, sorridente, saltitante, trouxe as memórias das cores da terra, o colorido dos frutos, a magia do azul do mar, e a suavidade dos pôr de sol numa simbiose perfeita com as cores mais monótonas da Europa, recortadas aqui ali por pequenos contrastes. O azul a sua cor de eleição.

 

‘’Nas minhas obras, revivo na temática urbana todos os contrastes evidentes da sociedade que me rodeia, e projeto-os em reticulados constantes da vida, do corre-corre diário, nas linhas divagantes das construções irreverentes e angustiantes onde muitas vezes, o homem é só mais uma peça de arrumação temporária esvaziado de sensações puras e livres que lhe adormecem as memórias e os sonhos’’ Rosa Vaz.

 

A artista plástica participou em exposições individuais e coletivas tanto em Portugal como no Estrangeiro. Desde Monção a Melgaço, Vigo, Corunha, Villa Garcia de Arosa, Ferrol, Santiago de Compostela, Guimarães, Porto, Esposende, Lisboa, Caminha, Valença, Montemor-o-Novo, Póvoa de Lanhoso, Coimbra, Vieira do Minho, Fafe, Braga, Barcelos, Sousel, Viana do Castelo, Bragança, Vilnius, Newark entre outros locais.

 

Está representada em coleções de Arte, de teor público e privado tais como Câmaras Municipais, Bancos e Fundações.

 

A sua interação com outros artistas na promoção da Cultura, levam Rosa Vaz a Promover vários eventos ao longo destes anos como por exemplo, ‘’os Dias de África’’, em parceria quer com a Universidade Católica de Braga, quer com a Biblioteca Lúcio Craveiro de Siva, o Museu dos Biscainhos, o museu D. Diogo de Sousa, etc… ; as Noites de Prata do Museu dos Biscaínhos,, as Conversas Desconcertantes na BLCS  etc… Assim como ilustração de livros e ilustração da capa de um CD dos D’ Alma – ‘’Melodias do Teu Poema”, onde também está presente uma música de um poema seu. E também a ilustração da capa de um CD de Torsten Muller , músico que vive no Canada.

Nos  “Dias de África” em Maio de 2018, organizado por Rosa Vaz,  promoveu  uma tertúlia com o tema “África no Coração”, moderada pela Rosa Vaz, e contou ainda com um Desfile de Moda, um espectáculo de Dança e uma Exposição de Pintura.

 

 

Pela ocasião da comemoração dos seus 30 anos de actividade artística, edita o livro de poesia “Pele de Lua” em conjunto com uma exposição de Pintura intitulada “Rosa Vaz – 30 anos de arte e cultura” em Novembro de 2018, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Sila, em Braga.. 

 

 

E durante um ano fez um ciclo Exposições em vários locais do país para comemorar os 30 Anos de Carreira na Arte e Cultura.

 

A sua exposição colectiva mais recente foi “No Feminino” em conjunto com mais 4 artistas Plásticas. Foi inaugurada a 7 de Março com previsão de encerramento a 19/04 em Barcelos.

 

" Tenho uma necessidade permanente de uma viagem emocional, onde me cruzo com as memórias, com os cheiros de África que me embebedam de saudades das cores fortes, do cheiro do mar, do anoitecer macio, dos rostos e gestos sorridentes, daquelas cores terra que por entre as janelas da cidade cinzenta eu exalto, eu construo em cada pedaço de espaço, em cada olhar que registro num tempo sem fim, num tempo infinito... porque, - “Pintar é escrever o mistério da imaginação!"

Rosa Vaz

25 de fevereiro de 2014

 

AMMA: Onde deu os seus primeiros passos na arte? Ainda em Malange ou já em Portugal?

 

Rosa Vaz: A Arte nasce connosco, A gente vai apercebendo-se que tudo que vê, pinta, desenha, escreve é carregado de uma sensibilidade que outros não têm.

 

AMMA: Com que idade veio para Portugal?

 

RV:Com 12 anos

 

 

AMMA: Quais são as suas influências do tempo de infância passada em Angola?

 

RV:Os sorrisos, o calor, o abraço, a felicidade, a Natureza próspera e colorida, os dias quentes, o amanhecer de cores incríveis às 5 da manhã, a chuva que caia de repente e se ia em bora deixando tudo enlameado, e aquelas danças à chuva dos putos da escola que fugiam das salas para vir abraçar a cuva….tão bom!! Que saudades!

 

AMMA: Expôs com vários pintores durante estes anos. Também visitou vários museus e galerias de grandes nomes da Arte que já cá não estão. Destacaria alguns com cujas obras  se identifica mais?

 

RV:Sim, Expus com muitos artistas, posso destacar, o Roberto Chichorro, a Carmen Touza, gosto muito das suas obras, além de serem  seres humanos muito simples e acessíveis; dos que cá não estão destaco a Vieira da Silva, sem dúvida e o Pollock

 

AMMA: A paixão pela pintura e pela escrita nasce em que altura da sua vida?

 

RV:Pintar ou escrever é uma forma de comunicação, faz parte do artista, é como se fosse a nossa pele e coração, sempre a vibrar, a sentir.

 

AMMA: Quando pinta temas africanos, sente nostalgia?

 

RV:Não se trata só de nostalgia, é uma forma de  recordar e tornar vivas as memórias da minha Infância

 

 

AMMA: Prefere a tela, a cerâmica ou acrílico sobre o papel? Quais as suas técnicas e materiais preferidos?

 

RV:Não tenho preferência. Depende da criatividade do dia, ou das encomendas. Não importa o suporte, o que gosto mesmo, é de criar Arte.

 

 

AMMA: Qual a sua conjugação de cores preferida?

 

RV:Azuis, ocres, laranjas, vermelhos, dourados

….

AMMA: O Norte de Portugal inspira-a nos seus trabalhos? Em que aspecto? O que lhe dá mais prazer pintar?

 

RV:O Norte fascina-me pelos recortes de paisagens, aglomerados de casarios como se abraçassem para não se perderem uns dos outros, os campos e caminhos na natureza, preenchidos de gente que sorri e tem sempre uma história para contar, as montanhas a tocar os céus, o mar azul, fresco, ondulado, com personalidade,,,,, Amo o Norte!

 

AMMA: E na escrita, sobre que temas incide mais a sua poesia e o que a move?

 

RV:Sobre coisas simples, que nos roubem sorrisos, sobre a beleza  dos afetos na vida, sobre o Amor, sempre o Amor por tudo.

 

AMMA: Costuma ir na rua e de repente puxar pelo bloco para escrever?

 

RV:Imensas vezes, e pintar também. Muitas vezes pinto, com restos de café, quando tomo o meu cafezito!!!

 

AMMA: Alguns dos seus trabalhos referem-se à dança, porquê?

 

RV:Fui bailarina em miúda, portanto tenho um fascínio enorme pelo ballet por música clássica, em especial por Bach

 

AMMA: Todas as artes estão ligadas entre si?

 

RV:Sem dúvida . É fácil uma poesia criar um quadro, como um quadro gerar um poema, uma história, uma música.

 

AMMA: Também necessita de ter o seu espaço, o sossego, o seu cantinho sem ser interrompida?

 

RV:Verdade, Desligo o telemóvel e conduzo até ao mar, de preferência, Moledo e depois continuo viagem atá Monção, a minha terra de adoção, onde gosto de ir, de estar e rever os locais e amigos de antigamente.

 

AMMA: Quando é interrompida num momento de inspiração como reage?

 

RV:Sorrio… faço de conta que não percebo, e mudo de lugar… para continuar com a inspiração.

 

 

 

AMMA: O seu atelier como o descreve?

 

RV:O meu atelier é o local onde eu solto a minha inspiração, é a ‘’casa’’ onde guardo os meus pensamentos.

 

AMMA: Como classifica cada obra concluída?

 

RV:Cada obra é mais um capitulo da vida, é mais um registo que ganha voz, espaço, vida própria.

 

AMMA: Qual é a sensação com que fica quando alguém adquire uma obra sua? Além da felicidade do interesse do comprador, sente que é uma parte de si que vai embora?

 

RV:Quando vendo um quadro, sinto que alguém terá o privilégio de conversar com a minha inspiração de vez em quando. Sinto uma partilha de afinidade.

 

AMMA: Na pintura, como foi o seu percurso nos vários estilos ao longo destes 32 anos?

 

RV:Começa-se com o querer ‘’gritar’’ que estamos vivos, …..com o tempo aprendemos a ter tempo de fazer o que queremos escrever com tinta, o que vemos, à nossa volta, com delicadeza

 

AMMA: Como curadora e organizadora de eventos culturais, como é a magia de estruturar a disposição da arte para que os visitantes consigam interiorizar a mensagem que lhes quer passar?

 

RV:É mesmo um momento de magia, de empolgamento.

 

AMMA: As suas exposições costumam ser preparadas somente por si, ou também tem alguém a trabalhar na curadoria delas?

 

 

RV:Depende. Mas seja em que situação for, a última palavra e definição de espaços e luzes e outros pormenores, é sempre minha!. Sou uma artista, muito mãe galinha do que é a minha criação. Não tenho problema nenhum em dizer, NÃO, ou NÃO CONCORDO. Ou até recusar expor em certos espaços com os quais não me identifico.

 

AMMA: Tem uma pegada importante de trabalho seu dedicado à lusofonia. Como é que ele nasce, e o que tem sido construído nesse âmbito? Estamos a falar de que tipo de artes?

 

RV: A Lusofonia, é um território de memória muito alargado a muitas pessoas e países, tento fazer  tudo que posso quando se trata de divulgar e promover nesse âmbito, quer na Pintura, Música, escrita, dança, etc…

 

AMMA: Como se conseguem descobrir e reunir os autores dos vários países de expressão portuguesa?

 

RV: Há um leque muito alargado de autores, pintores, músicos, que de vez em quando, se reúnem, num evento para falar do deu trabalho, e promover a gente nova que vai aparecendo.

 

AMMA: Prefere exposições somente com obras da sua autoria ou em conjunto com outros artistas?

 

RV:Depende das circunstâncias, dos convites, dos espaços.

 

 

AMMA: Sendo um pouco atrevido: é verdade que gosta de pintar com os pés descalços? Sente-se mais descontraída?

 

RV:Verdade…adoro pintar descalça….sentir a energia.

 

 

AMMA: A saúde têm sido traiçoeira ao longo da sua vida, mas como mulher lutadora tem vencido. Como vê cada um desses episódios mais marcantes, e que ensinamentos lhe deram?

 

RV:Vou falar do mais recente. O cancro de mama em 2018, no ano que iria começar as comemorações dos meus 30 anos na Arte e Cultura. Sei que a 3ª cirurgia foi numa 3ªfeira, e eu no sábado dessa semana, estava a fazer a apresentação da 1ª exposição comemorativa dos 30 anos que iria percorrer várias cidades durante um ano, ( mal me tinha em Pé….)  mas fui, e inaugurei a Exposição com um sorriso e uma fragilidade imensa transformada em fortaleza, e apresentei o meu livro de poesia PELE de LUA, ( sempre com o meu filho, o meu guerreiro protetor, ao lado e com os olhos rasos de água) no meio de amigos, familiares, várias entidades, incluindo elementos ca Câmara Municipal de Braga, ( e todos tentavam esconder a emoção…) por me  verem  ali num esforço enorme….foi emocionante! Muito!!!

 

 

AMMA: Relativo a esse último, o cancro da mama, o que quer partilhar com todas as mulheres num  incentivo à vida, baseado na forma de como lutou para vencer o seu?

 

RV:Um dia de cada vez, cumprir com todos os tratamentos e, muito amor pela vida para podermos ter pensamentos positivos.

 

AMMA: Quanto a planos para curto prazo, para além de vencer o Covid-19, em que projectos está a trabalhar para lançar após terminar a pandemia?

 

RV: Nova Exposição de Pintura, e o meu 2º livro de poesia.

 

 

AMMA: Por último e com tema livre, que palavras quer deixar aos nossos leitores?

 

RV: Não se esqueçam de abraçar/amar quem vos faz sorrir e vos dá alegrias. Amem a Natureza, nós somos a Natureza!! O Amor é o segredo para fazer tudo na vida! E, nunca se esqueçam só temos uma vida.

A si, Pedro, o meu sorriso de gratidão por esta oportunidade de levar aos seus leitores um pouco da minha Alma.

Bem Haja!

 

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: Arquivo Rosa Vaz

 

 

Vamos conhecer os 2JACK4U

 

 

Fomos conhecer a dupla 2JACK4U, um projeto de Acid Techno com características pouco comuns. E pouco comuns porquê? Porque munidos de maquinaria analógica, sintetizadores, drum machines (máquinas de ritmo) e efeitos percorrem o país com os seus míticos lives improvisados de Acid Techno, género musical que surge no final dos anos 80. No seu estúdio em Cascais preparam o seu setup analógico, escolhem as máquinas (Roland TB-303, Roland TR-909/808/606, Roland SH-101, Roland MC-202, Behringer Pro-1, entre outros) e efeitos (delays, reverbs, phaser, distorção) que vão utilizar e apresentam os seus lives em festivais e locais de diversão nocturna, tendo já passado pelo Festival Neopop (Viana do Castelo), Brunch Electronik (Lisboa), Festival Forte pelo Lux (Lisboa), Gare Club (Porto), Desterro, Damas (Lisboa) entre muitos outros locais. Têm ainda um slot mensal com o seu programa “Covil Sessions” da Rádio Quântica e neste momento de pandemia é habitual vê-los e ouvi-los nos streamings que fazem nas redes sociais a partir do seu estúdio a que chamam Covil!

 

 

2JACK4U é composto por André Faustino, médico de profissão, cascalense por natureza e Rubina Góis professora de filosofia, nascida e criada no arquipélago da Madeira. A jornada musical de André Faustino começou quando se dedicou a aprender órgão clássico e formou a sua primeira banda de escola nos anos 80, “Os Sulfúricos” que tocavam covers do rock, pop eblues. Manteve-se em bandas de rock até final de 1991. Rubina Góis entrou no mundo da música quando começou a trabalhar numa sala de ensaios e gravações em Alcântara, posteriormente conheceu o André através de um amigo em comum, o Francisco. Juntos formaram os “LorenzFactor”, projeto de djing tendo a partir daí surgido outros projetos como “The Cage Cabarrett” de música experimental, “2jack4U” de Acid Techno improvisado com hardware analógico, “Pharmacia” banda de Krautrock com Ricardo Simões e Mário Fernandes.

Vamos conhecê-los melhor com uma breve conversa.   

               

AMMA: Como surgiu a vossa formação musical?

 

2Jack4U

 

Rubina Góis: Desde pequena que adoro musica, sempre me interessei por conhecer ondas novas e novos estilos musicais, a música para mim faz parte de toda a minha existência e não poderia viver sem ela, mas é quando venho estudar filosofia para Lisboa que começo a trabalhar nesta área por ter conseguido trabalhar na receção de uma sala de ensaios em Alcântara, os estúdios HCU.  Mais tarde, conheci o André através do nosso amigo em comum, o Francisco Rodrigues e como trio formámos os LorenzFactor, projeto de djing que percorreu Portugal de norte a sul com os seus djsets multifacetados e divertidos.

 

André Faustino: No meu caso começa quando inicio a aprendizagem do órgão e começo a tocar nas Missas do Colégio dos Salesianos onde estudei até ao 12º ano. Para podermos usar a sala de ensaios, tocava órgão nas missas, era uma espécie de moeda de troca para a banda que formei com os meus amigos, na altura “Os Sulfúricos”, pudesse ter uma sala de ensaios. Aliás tocávamos todos nas Missas e dias de Celebração. “Os Sulfúricos” duraram alguns anos mas era uma banda mutável pois sempre que saía um elemento mudávamos o nome; fomos Eqivoko, Cabo da Moca, SilverRose (estes são os nomes de que me lembro).

 

AMMA: Tiveram vários nomes para este projeto ao longo destes anos. Porquê?

 

2Jack4U: Não existiram vários nomes para este projeto. Existem e existiram outros projetos desde 2005/6. O primeiro foi LorenzFactor um trio de DJs, a partir daí surgiram muitos outros projetos paralelamente. Uns acabaram, outros estão em hibernação. “2jack4u” é a nossa vertente mais dançável porque o género musical assim o dita, falamos do Acid Techno. Mas existem outros projetos como “The Cage Cabarrett”, projeto mais experimental, mas também com maquinaria analógica, “Pharmacia”, projeto com formato banda onde eu e a Rubina contribuímos com os sintetizadores analógicos, o Ricardo Simões com bateria e outra parafernália de efeitos e instrumentos e o Mário Fernandes com o baixo. Existe também “The Man With No Head”, que é um projeto dedicado às produções dentro do estúdio. E a Rubina tem o seu projeto a solo, como Trigher que utiliza também sintetizadores e caixas de ritmo analógicas. No entanto há algo comum entre todos os projectos, são todos baseados em improvisação, 'sem rede', com material por vezes mais velho que nós. E, claro, temos centenas de horas gravadas de jams com outros artistas ou projectos, gravados aqui no estúdio.

 

 

AMMA: Em Portugal há mercado para a música alternativa mais em concreto o Acid Techno, ou ainda se sente alguma resistência da parte dos espaços de música nocturna e do público em geral?

 

2Jack4U: Neste momento não podemos considerar o Techno ou a Dance Music como alternativo. Por exemplo o Techno foi considerado em 2019 Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Cada vez é mais difícil encontrar espaços nocturnos dedicados unicamente ao Rock, no entanto locais com música de dança abundam pelo país. Porém os nossos Lives são uma metamorfose das nossas várias influências, canalizadas para aquelas máquinas, resultando num estilo que realmente podemos considerar mais underground e alternativo.

 

AMMA: Como vêm o futuro da música de dança em Portugal?

 

2Jack4U: Com bons olhos porque existe cada vez mais autonomia por parte dos produtores, mais ferramentas seja a nível de produção, mas também de divulgação do teu trabalho. Hoje em dia já não precisas de ser “descoberto” por uma editora para dares a conhecer a tua música, claro que com uma editora o caminho torna-se mais fácil. As plataformas de divulgação digital dão mais autonomia aos projetos para divulgarem a sua música e chegar a qualquer parte do mundo. Essa autonomia permite também que conheças e tenhas acesso a mais música de diversas origens. As bandas de garagem tornaram-se num produtor de quarto (BedRoom Producer).

 

AMMA: Como foram os vossos primeiros tempos antes de se lançarem e terem o sucesso que têm hoje e também quais foram as maiores dificuldades que sentiram?

 

2Jack4U: O acesso a certos espaços noturnos e festivais é um caminho por vezes difícil. Ser conhecido não significa que um projeto é bom ou mau, mas por norma só te convidam para grandes festivais ou grandes casas quando já tens uma certa “fama” no mercado, fama que não é necessariamente sinónimo de qualidade.  

 

AMMA: Em que festivais e locais de diversão noturna é que já atuaram?

 

2Jack4U: Tocámos em locais como o Lounge, Desterro, Damas, Lux Frágil, Village Underground, Europa, Flur, Eka Palace (Lisboa); Gare, Maus Hábitos, festas da Ácida (Porto); Oceans Club para a EON (Portimão), Friday Hapiness Pizza Night (Monchique), Stereogun para a Lobo Mau Records (Leiria). E no Festival Neopop (Viana do Castelo), no Brunch Electronik, no Camping do Festival Forte (Montemor-O-Velho), no Zigur Fest (Lamego), nas Oficinas do Convento (Montemor-O-Novo), entre outros.

 

 

AMMA: Para uma atuação ao vivo, em média quanto tempo investem a prepará-la?

 

2Jack4U: Uma vida inteira (risos). É um trabalho que nunca para porque todas as aprendizagens são importantes para a tua evolução no teu trabalho. Mas gostamos de ter algum tempo mínimo, digamos 2 semanas, para pensar o setup, ou seja, as máquinas e efeitos que vamos utilizar e (muito importante) as ligações entre elas, depois das máquinas ligadas e testadas a palavra de ordem é “jammar, jammar, jammar”! Sempre improvisado! Sempre diferente!

 

AMMA: Os 2Jack4U têm a particularidade de usar equipamento analógico. Existe algum motivo especial para isso?

 

2Jack4U: Na verdade tudo começou quando o Francisco aparece no Covil com um flyer publicitário dos anos 70, de uma freira a manipular um sintetizador numa mala (EMS Synthi A) com a frase ‘Every Nun needs a Synthi’. Isto aconteceu por volta de 2009, a partir desse momento foi a desgraceira dos sintetizadores e comprámos o primeiro um Theremin. Nesse momento decidimos entre os 3 que o (pouco) dinheiro que angariássemos no djing seria para investir em synths e drum machines. Ficámos, portanto, máquino-dependentes J

 

AMMA: Como muitos dos aparelhos analógicos estão descontinuados do mercado, há dificuldade em conseguir obtê-los e fazer a sua manutenção? Ainda há componentes para substituição?

 

2Jack4U: É muito difícil porque a procura é cada vez maior e a oferta é pouca. Não é qualquer técnico que tem os conhecimentos para reparar máquinas analógicas do século passado. Já não existem os componentes originais, mas é possível encontrar alguns componentes que podem bem substituir os originais. Por outro lado, existem componentes que já não são possível encontrar, nesse caso dizes adeus à máquina, pois não há forma de a voltar a pôr a funcionar. Mas, no entanto, por as máquinas serem tão antigas, os componentes são extremamente simples (devido à electrónica na altura ser mais rudimentar) e esses conseguimos arranjar com facilidade. Mas a verdade é que muitos synths resultaram de lotes de peças defeituosas o que lhes dá um carácter único. E quando esse lote acaba... acaba a produção desse synth. Há várias histórias do mundo da música de grandes sucessos comerciais que resultaram de erros de produção ou lotes de peças defeituosas. O Roland TB-303 é o exemplo mais evidente e famoso!

 

AMMA: Assim para além dos vossos conhecimentos musicais, este projeto também requer conhecimentos de eletrónica. Houve necessidade de novas aprendizagens? Isso foi um bom desafio?

 

2Jack4U: No nosso caso, não nos dedicámos aos conhecimentos da engenharia eletrónica, porque o nosso trabalho não é reparar a máquina, mas o nosso papel é usá-la em termos criativos; esse é o nosso desafio. Tivemos de estudar o que é a síntese analógica, como funcionam os sintetizadores, o que fazem, como trabalham, para que servem tantos “botões” (risos), tivemos também de estudar qual a melhor forma de colocar várias máquinas a conversar  uma com as outras, tivemos de estudar a melhor forma de montar um estúdio. Toda a componente técnica de reparação das máquinas foi sempre realizada por pessoas especializadas, atualmente pelo nosso “drº dos synths”, o Rui Antunes.

 

AMMA: Em que aspeto a atividade musical acaba por ter impacto na vossa vida profissional?

 

2Jack4U: Principalmente no sono (risos). Nunca temos fins-de-semana. É um interruptor passar da fase profissional para a fase criativa.

 

AMMA: Agora em situação do Covid-19 têm estado a oferecer espetáculos online de acesso livre. É uma questão de solidariedade para quem não pode sair de casa?

 

2Jack4U: Para nós é uma oportunidade de continuar o nosso trabalho, divertirmo-nos e divertirmos quem assiste, e ficamos felizes quando recebemos um “obrigado por isto, estava mesmo a precisar” porque significa que o live que transmitimos em streaming não nos fez só felizes a nós, mas a outros que estiveram (mesmo que por breve minutos) a assistir, se pudermos animar e dar mais alento a quem não pode sair de casa.

 

AMMA: Com o fecho dos espaços de diversão noturna ficam limitados à participação na Rádio Quântica e aos diretos online?

 

2Jack4U: Ficamos todos limitados em tudo, mas é necessário adaptarmo-nos e reinventarmo-nos daí estarmos a emitir os nossos diretos semanais online a partir do estúdio. Agora também há mais tempo e oportunidade para criar faixas novas que em breve sairão em várias compilações. A participação na Rádio Quântica é mensal e também convidamos outros projetos a mostrar o seu trabalho. Não centramos o programa “Covil Sessions” unicamente aos nossos projetos.

 

 

AMMA: Têm alguma mensagem que queiram deixar tanto aos vossos fãs como aos outros artistas que neste momento estão a viver as mesmas dificuldades que vocês devido ao confinamento?

 

2Jack4U: Parar é Morrer. Não Pára Não Morre! Tudo é Mudança e Incerteza (daí adorarmos a improvisação) e esta Pandemia veio comprovar isso e abalar todas as Certezas que o Ser Humano necessita e em que se apoia. Isto veio mudar tudo e temos que nos adaptar. E vamos conseguir! A Música não é só um escape é também um poderoso medicamento e meio de comunicação. E nesta altura precisamos tanto de comunicar uns com os outros....

 

AMMA: São tempos para repensar um pouco a vossa estratégia e alinhar o vosso futuro como projeto ou não estão preocupados com isso?

 

2Jack4U: Temos saudades de estar na presença das pessoas, de partilhar com elas o nosso trabalho, de fazer os lives e saudades da comunicação que se estabelece ao vivo. Queremos voltar aos lives porque sentimos falta dessa comunicação e união que sentimos com as pessoas quando tocamos. A nossa única estratégia é tocar!  (sorriso).

 

AMMA: Como estamos a falar de saúde e tendo em conta que o André é médico, tem tido uma vida mais atarefada, nos últimos tempos. Consegue gerir bem a atividade de clínico com a música? A música acaba por ser um escape para si?

 

2Jack4U: Neste momento aguardo ser chamado para as 'trincheiras' mas até agora ainda não estive na linha da frente. A música é sempre uma catarse. É a terapia ao fim do dia. É o Xanax e o Prozac sem ressaca (risos).

 

AMMA: A Rubina também está a viver um novo desafio para os próximos tempos que será terminar o ano letivo com os seus alunos à distância. A pergunta é semelhante à do André, como consegue gerir nestes tempos que são novidade para todos e a atividade musical?

 

2Jack4U: O desafio é enorme e está a dar-me muito prazer preparar as aulas à distância onde neste momento trabalho com sessões síncronas, mas também com sessões assíncronas. Aquilo de que me apercebo é de uma maior motivação dos alunos para aprender. Penso que os miúdos são constantemente bombardeados com a escola, o ter de aprender isto e aquilo, a serem obrigados a passar demasiado tempo no espaço escolar e dentro das salas de aulas o que se torna exaustivo e desmotivador. Com esta pausa pandémica eles aprenderam a valorizar as aprendizagens e os conhecimentos. Esta é também uma altura para o ensino se reinventar fora da sala de aula e quando regressarmos ao espaço comum trazermos connosco aquilo que aprendemos com o ensino à distância.

 

AMMA: Em termos de rentabilizar o vosso projeto, estão a idealizar o lançamento de algum álbum, ou mesmo para aquisição dos temas nas plataformas eletrónicas?

 

2Jack4U: Existem várias faixas prontas a sair em breve em diversas para compilações. Durante esta pandemia, para além dos streamings, estamos a focar-nos também num projeto colaborativo com outros produtores portugueses e a focarmo-nos na produção de um álbum ainda sem data anunciada.

 

AMMA: Agradecemos a vossa disponibilidade por esta conversa, para vos darmos a conhecer melhor aos nossos leitores, fazer o balanço da atividade da música alternativa, neste caso o Acid Techno e ainda a conjuntura social que atravessamos com a atividade do projeto.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: André Dinis Carrilho

 

 

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021 – 19:44:31

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