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Zélia Paulo Silva, fotógrafa de embarcações típicas do Tejo

 

Todos os povos que estão em contacto com um rio ou o mar têm muitas histórias para contar da sua tradição com as águas que os rodeiam. Há sempre alguém que regista estes meios e de várias formas os imortaliza quer seja de forma verbal, escrita ou artística. A fotografia veio ajudar a contar histórias na sua vertente documental e artística.

 

De uma forma geral nestas povoações em tempos surgiu a necessidade de desenvolver as embarcações que aproveitam os recursos marítimos ou fluviais para facilitar as suas necessidades de transporte de pessoas e bens entre os vários locais.

 

Portugal é um país exemplo nessa uma forte tradição, descobrindo grande parte do mundo via marítima no século XVI desenvolvendo navios com a tecnologia de ponta para a época assim como os respectivos instrumentos de navegação. Os registos de então permitem aos investigadores de hoje reproduzir essas embarcações como os seus instrumentos aliados à orientação da navegação no mar.

 

Em qualquer ponto do país onde haja uma população com tradições de embarcações, sejam piscatórias, de transporte, ou de lazer, têm as suas com particularidades próprias dessa mesma região,  acabando pelo país ter um sem fim de exemplares todos eles diferentes conforme as necessidades das suas povoações, todos eles são belos e com muita história.

 

 

Zélia Paulo Silva, é uma fotógrafa que tem um vasto portefólio de embarcações típicas do Tejo, usadas pelas povoações entre Vila Franca de Xira e Lisboa.

 

A origem desta fotógrafa é da zona das Caldas da Rainha tendo a sua ligação com os meios aquáticos sido sempre uma constante, tendo crescido entre uma Lagoa e o mar.

 

A sua paixão pela fotografia começou cedo, e diz que acredita «que o olhar e o sentimento usado em cada uma das fotografias fazem toda a diferença».

 

AMMA: Sempre teve uma ligação à água e paixão pela fotografia. Quando juntou as duas?

 

Zélia Paulo Silva:  Cresci entre a Lagoa de Óbidos e a Foz do Arelho, o elemento água sempre esteve muito presente, juntei os dois com a compra da minha primeira máquina fotográfica, uma HP analógica...andaria na casa dos 20 anos…gastava a mesada nas revelações.

 

AMMA: Quando diz que a fotografia para si é encarada de forma simples sem ser como um Hobbie mas sim um estado de espírito, o que significa isso em termos práticos?

 

ZPS: Significa a abstração de tudo, os meus momentos… por trás da lente o meu universo paralelo, as minhas vivências.

 

 

AMMA:  Quando veio residir para a zona de Vila Franca de Xira, começou a ter mais contacto com o rio, estando numa zona privilegiada sente as comunidades, naquela altura, muito fechadas, como a Póvoa de Santa Iria, Alhandra… contudo consegue que a integrem no seu meio. Que curiosidades tem sobre elas…? O seu meio fechado era por timidez, desconfiança?

 

ZPS: Demorou muito tempo mesmo para ser aceite com par, os avieiros são uma comunidade fechada, não diria timidez nem desconfiança é a maneira de ser deles, sobretudo os mais antigos…também não estavam habituados a ver uma miúda tão curiosa e tão faladora, foram necessárias várias abordagens, passar horas a vê-los trabalhar nas redes antes de me deixarem fotografar…ainda hoje têm alguma resistência às fotografias.

 

AMMA: Conseguiu registar histórias e o modo de vida delas? Algum facto curioso que gostasse de partilhar? A dureza e a sua pureza teve sempre ligação ao rio e as bateiras?

 

ZPS:Mais a fotografia do que as histórias se bem que existem levantamentos das mesmas muito interessantes  feita por historiadores e entusiastas, recordo-me assim de repente de um Boletim Informativo ”Rosácea” da Associação Comercial e Empresarial de Santarém com quem também participei eles com o levantamento das histórias eu com algumas fotografias mas sim… uma curiosidade gastronómica, fataça frita na telha, tornado prato da gastronomia Tradicional Ribatejana… nunca eu pensei que aquele peixe fosse comestível….outra…a linguagem avieira, uma dialética muito própria que para quem ouve muitas vezes só o escutar com muita atenção não chega…Expressões como “abicar”, “maracha”,”rabeiras”.

 

AMMA: Como foi a sua participação nos encontros Avieiros do Instituto Politécnico de Santarém? Em que aspecto tiveram impacto na sua vida?

 

ZPS: Sou muito curiosa e em conversa com os pescadores falaram-me do projecto que estava a ser desenvolvido pelo IPT,  de promover e elevar a cultura avieira a património nacional. Daí a ter entrado em contacto com eles e a começar a participar  em alguns dos encontros  foi um passo. Proporcionaram-me maior abrangência, o contacto com outras comunidades pude visitar outras Aldeias Ribeirinhas…Caneiras, Escaroupim, Patacão. Realidades semelhantes mas com as suas particularidades.

 

AMMA: Quando começa a fazer um registo fotográfico, tem em mente o legado que representa o seu trabalho?

 

ZPS: Curiosamente não, talvez agora já tenha mais essa percepção mas inicialmente não…fazia pelo gosto, pela identificação com os mesmos, pelas embarcações de cores alegres, magnificamente adornadas, pela beleza do desfile no rio.

 

AMMA: Depois desta fase começa a tomar interesse em mais tipos de embarcações. Como foi esse desenrolar dos acontecimentos? Que pormenores a chamava mais à atenção em cada uma delas?

 

ZPS: Sim via no rio outras embarcações de madeira, maiores, com mastros, imponentes e achava curioso…o primeiro impacto foi com o varino Liberdade da Câmara de Vila Franca de Xira com traços de barco moliceiro…amarelo… gigante…lindo…foi paixão á primeira vista.

 

 

AMMA: A um determinado momento conhece o Professor Fernando Carvalho Rodrigues, de uma forma um tanto ou quanto engraçada. Como é que aconteceu?

 

ZPS: Quis o acaso que me cruzasse com o Professor Carvalho Rodrigues numa regata em Vila Franca de Xira, sem saber do que se tratava fotografei a regata e o Professor a bordo do varino Liberdade, na altura fazia parte de um site de fotografia e publiquei a imagem. Pouco tempo depois recebi um email do grupo de imagem do mesmo a pedir o contacto e pensei estou metida em trabalhos… direitos de imagem…mas não apenas amavelmente o professor me contactou para pedir a fotografia e me convidar a participar numa Regata, isto em 2008.

 

AMMA: Após o “susto” que apanhou, passou a ser frequente a sua participação nas actividades da Marinha do Tejo com as suas embarcações típicas. Como é para si trabalhar ao lado do Professor Fernando Carvalho Rodrigues? O que mais de interessante reconhece nele?

 

ZPS: Mais do que um visionário, uma pessoa solidária para com o próximo…faltam-me as palavras para descrever o apreço que tenho pelo mesmo… contudo quanto à Marinha do Tejo não esqueçamos a sua ligação à Armada bem como o seu apoio, porque a Marinha do Tejo é por Lei um Pólo vivo da mesma…

 

AMMA: Das embarcações da Marinha do Tejo, qual é a sua favorita para fotografar?

 

ZPS: Todas primam pela diferença, pelas características, pelas cores e pinturas, pelas velas  pelos mestres e arrais portanto não tenho preferências. Gosto de as sentir como um todo.

 

 

AMMA: Fazer a fotorreportagem do Dia da Marinha do Tejo em que as embarcações estão  muito aprimoradas para esse dia de festa, proporcionando uma mancha bonita ou  fotografar a Real Regatta das Canoas em que elas estão em competição, qual lhe dá mais prazer fotografar e de qual gosta mais do resultado final do seu trabalho?

 

ZPS: São cenários diferentes…o dia da Marinha do Tejo permite o contacto com os mestres, arrais, proprietários das embarcações…o assinar do livro da Marinha do Tejo, a Real Regatta encerra o ano náutico, deixa-nos o saudosismo para um regresso breve, a adrenalina da competição saudável e ambas a comunhão com o rio.

 

AMMA: Depois de começar a lidar com os proprietários e arrais destas embarcações, as pessoas que as reparam e alguns que ainda as constroem, o que retém dos seus ensinamentos e que registos fotográficos costuma fazer?

 

ZPS: Retenho toda uma cultura em vias de extinção e que só por garra, teimosismo, persistência e gosto sobrevive… retenho história de vidas de pessoas incríveis e vivências impares…retenho a amizade que me votam independentemente se estou com a máquina fotográfica ou não.

 

 

AMMA: Aqui criou amigos, que relação tem com estas famílias que trabalham nestes ofícios?

 

ZPS:  Sim amigos, daqueles que mesmo não convivendo diariamente ficam…acabo por me entrosar com algumas famílias…filhos, netos, bisnetos, é algo muito enriquecedor…na Marinha do Tejo são 13 anos de convivência.

 

AMMA: Para além do trabalho de fotorreportagem e de fotografia documental nestes eventos, faz fotografia artística. É aqui que entra a componente de “estado de espirito”?

 

ZPS: Também, acho que se complementam…totalmente diferente, mais detalhe, pormenor, outras simbologias…impactos diferentes, contrastantes, mas com igual peso no estado de espírito. Participo com alguma frequência nas visitas guiadas aos cemitérios de Lisboa promovidas pela Camara Municipal de Lisboa e orientadas por historiadores, a dor no feminino, a simbologia, a história por detrás de um túmulo, a continuidade pós vida é algo que me fascina.

 

AMMA: Quando publica fotos de embarcações costuma associar um poema, ou um tema musical. São ambas as artes a falar umas com as outras?

 

ZPS: Pode ser uma interpretação sim mas o que me leva a fazê-lo é o gosto que tenho por essas artes, não consigo dissociar música, de poesia da fotografia…lá está complementam-se…o dito estado de espírito.

 

AMMA: Cada foto que faz ou cada reportagem que publica, sente mais uma missão cumprida no trabalho de eternizar estes costumes que estiveram na eminência de acabar quando surgiram alternativas à sua utilização?

 

ZPS: Parte da minha missão cumprida, porque de alguma forma sinto-me parte integrante nesse eternizar…uma gota de água mas que também tem a sua importância…não sou a única gota mas sinto que faço parte do oceano.

 

AMMA: O que gostava que se fizesse ainda mais em Portugal sobre fotografia documental e a da preservação deste tipo de património?

 

ZPS: Felizmente cada vez mais temos essa documentação, a fotografia documental como ferramenta de preservação da memória. O conhecimento, o inventário, a salvaguarda, a conservação, a valorização, a divulgação do património. Termos acesso ao passado ou, mais precisamente, a uma ideia de passado projetada para o futuro….acima de tudo dar continuidade.

 

Texto: Pedro MF Mestre

Fotos: arquivo de Zélia Paulo Silva

 

 

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terça-feira, 2 de março de 2021 – 07:41:12

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