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Reunião da “família”

Não tinha previsto escrever qualquer referência a este assunto, não, porque ele não fosse relevante para a“istória” do “berdadeiro”, mas porque iria coincidir com um período profissional e familiar mais conturbado. No entanto, a vida proporciona-nos algumas surpresas e nem sempre de agradável teor.
 
Para despistar um problema de saúde, fui confrontado com um internamento de urgência, que me levou a alterar a decisão. Perante um quadro de inactividade forçada e não estando minimamente incapacitado, apenas confinado à área de um edifício hospitalar por uns dias, não encontrei nada mais terapêutico para a minha sanidade mental, do que escrever sobre aquilo que me dá prazer – a fascinante Orientação.
 
Desta vez não está em causa nenhuma competição. Nem tão pouco pretendo dissertar sobre um qualquer tema da modalidade. Limitar-me-ei a abordar alguns aspectos relacionados com uma reunião da “família” quatro caminhense, que se realizou nas Penhas Douradas, para desanuviar o meu estado de espírito.
 
Não obstante já me encontrar um pouco combalido, fiz questão de marcar presença neste estágio do clube, que tinha como principal objectivo, reforçar o espírito de equipa, aproveitando para integrar novos atletas e como não podia deixar de ser, a efectivação de uns treinos técnicos como complemento, para a rapaziada não perder os bons hábitos.
 
Um grupo bastante heterogéneo, onde se destacava o “patriarca” Joaquim Costa, composto por vinte e oito elementos de ambos os sexos, com uma amplitude etária alargada (dos 13 aos 73) e igualmente de conhecimentos técnicos bem variados. Claro que para gerir tamanhas diferenças, foi preciso algum cuidado na gestão de tarefas, mas para quem já possui uma larga experiência nestas organizações, os problemas quase não existiram, tendo decorrido tudo de forma serena, em ambiente de verdadeira família.
 
Dado que o programa previsto era ambicioso, houve necessidade de antecipar a alvorada, de modo que antes das nove horas de sábado, já nos encontrávamos preparados para dar início a uma sessão de treino multitécnicas. E que raio de palavrão vem a ser este? Bem avisava a minha tia-avó – “vais aprender até morrer”.
 
O mistério foi desvendado num ápice: um mapa com vinte e três pontos, com várias zonas brancas (as ditas“janelas”), outras só com curvas de nível (roubaram as “pedrolas” e cortaram os verdes) e ainda uns espaçosos “corredores” para testar os azimutes puros e duros. E os abençoados caminhos? Pois é, mantiveram uns rabichos só para armar confusão.
 
Em jeito de compensação por tanta “maldade”, os madrugadores Fernando Costa e Vitor Delgado ofereceram-nos um “mimo”, tendo ido colocar boxes no percurso, para que pudéssemos utilizar os motivadores “SI`s”. Convinha confirmar se a malta cumpria o que estava destinado, não é? (cusquice ao mais alto nível, hehe!)
 
Técnica a mais, físico a menos, terreno exigente, proporcionaram uma receita desafiante, longa, pesada, mas levada a bom porto pelo “berdadeiro”. Reconheço que experimentei sérias dificuldades, para me desenvencilhar de certas lacunas do mapa. Afinal, até me dava jeito que as terríveis “pedrolas” estivessem todas representadas.
 
Contudo, como tive o privilégio de há uns tempos ter palmilhado toda aquela área, quando da preparação doTroféu de Manteigas, a minha memória de elefante fez batota, porquanto foi-me recordando a localização de alguns pontos. Só que para o caso isso não interessa nada e como também é informação classificada, vai ficar aqui só entre nós. Ok?
 
Não quero que julguem que naveguei de cor e salteado, porque apesar da qualidade da cábula, não evitei um ou outro atascanço. É verdade, que a inexistência de prismas dificultou a visibilidade das desbotadas fitas dos pontos do percurso permanente (quase no smordiam), mas também basta inverterem a direcção das pernadas, que lá se esfuma o “know-how” do “berdadeiro”.
 
Com a parte técnica matinal concluída, os afazeres domésticos passaram a ser a principal preocupação. Constituiu-se uma dinâmica linha de montagem, onde lavar, limpar, descascar, cortar, temperar, chorar (cebolas ariscas), refogar, cheirar (aroma e alho), se revelaram actividades essenciais. Uma equipa bem oleada (a fome até doía), que pouco tempo depois, conseguiu colocar toda a gente a bater alegremente com os dentes, saboreando uma deliciosa “bolonhesa-surpresa”.
 
Os hidratos de carbono foram bem necessários, porque duas horas mais tarde já tínhamos na mão o mapa urbano de Manteigas, para um vigoroso quanto desgastante sprint, debaixo de uns imprevisíveis 24º. Uma vez mais, a equipa técnica demonstrou que não brincava em serviço, apenas nos disponibilizando duas hipóteses de mapas – iniciados ou elites.
 
Eu ainda tentei assobiar para o lado, mas sem quaisquer contemplações, atiraram-me para o percurso mais duro, provavelmente para me obrigarem a queimar o excesso de massa ingerida (não descortino melhor razão). Para não ficar mal na fotografia (seria vexatório realizar um tempo desajustado dos demais), apliquei-me abnegadamente nas rampas, nos ziguezagues para os becos obscuros, nas íngremes escadarias, nos práticos trilhos da ribeira (só para “experts”)…uff…que cansaço…resultando numa prestação aceitável, tendo em conta que estávamos perante um treino e nada mais que isso. Brroo…desculpem…ai esta aerofagia inoportuna…
 
Seguidamente, o programa de festas propunha-nos um passeio turístico familiar, para conviver, descomprimir, oxigenar neurónios e tomar conhecimento com o que de mais belo a Serra da Estrela tem para oferecer. Um périplo por diversos locais emblemáticos e de cortar a respiração – as paisagens deslumbrantes do miradouro do Fragão do Corvo e Vale Glaciar, a pacatez esmagadora do Covão da Ametade, um pôr-do-sol magnífico na Torre, a beleza do espelho de água da Lagoa Comprida ao crepúsculo e passagem pela altaneira aldeia do Sabugueiro, com regresso ao quartel-general das Penhas Douradas.
 
Ao consultar o plano de treinos para a manhã seguinte, chamou-me a atenção o termo “memorização”, que precederia um percurso formal. Uops! Olha se eu me tinha esquecido de trazer as gotas revigorantes (não, não é substância proibida). Certamente não iria dar conta do recado. À cautela emborquei uma dose dupla, pois não fazia ideia que exercícios de memória nos destinariam.
 
Não nego que o treino me agradou, mas devo reconhecer, que os meus companheiros mais jovens têm obrigação de fazer aquela brincadeira com uma perna às costas. Analisar o mapa uns segundos, decorar a localização e possível progressão para um ponto (ou pontos), voltar e recomeçar nova pernada é interessante e até eleva a adrenalina, só que para um cota já desgastado como eu, ao fim de três sequências fica à beira de um esgotamento. Decididamente, para encerramento das actividades, prefiro a formalidade de um exigente percurso serrano. Mas notem que na história da memória, ainda despachei três pontos de uma assentada (para testar a eficácia das gotas, hehe!).
 
Terminei a parte técnica do estágio, percorrendo uma dúzia de pernadas de um traçado sénior, que apenas não teve melhor desfecho, porque fui apanhado no meio de vegetação de geração espontânea, que boicotou uma quantidade de trajectos. Em três meses, uns verdinhos inofensivos transformaram-se numa autêntica selva. Ainda tentei furar, mas só mesmo de rebarbadora em riste e uma carapaça à D. Afonso.
 
Entretanto, há um pormenor que me dá vontade de rir. Um tipo, que como atleta é um orientista de qualidade “berdadeiramente” duvidosa, desprovido de ambições desportivas e sobretudo com idade para ter juízo, envolver-se em estágios e trabalhos técnicos específicos, não fora o ridículo da situação, seria claramente um “case-study” na modalidade. Ou será por amor à causa?
 
Embora as sessões de treino tivessem acabado, fomos convocados para mais uma aula, novamente de “economia doméstica”, dominada pela azáfama dos tachos e orientada de maneira a deixarmos as instalações onde nos albergámos, como um reluzente brinco. Demonstrando uma queda especial para as artes culinárias, higiénicas e afins, os atletas meteram mãos à obra (alguns podiam trocar as bússolas pelo trem de cozinha que ficavam a ganhar, hehe!) e num estalar de dedos, o casarão parecia não ter sido usado. Simplesmente eficaz.
 
Com um sorriso de satisfação pelo dever cumprido, a “família” iniciou a descida da serra…
  

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020 – 12:36:28

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