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Estafeta a esgalhar

Não sei o que passou pelas mentes, normalmente lúcidas, dos elementos da comissão técnica do meu clube, para escalarem o “berdadeiro” orientista para uma equipa de estafetas séria e de responsabilidade. Juro, que da minha parte não houve qualquer tráfico de influências, não ofereci nenhum “robalo” a qualquer um deles e muito menos apresentei credenciais desportivas, que justificassem o acto, bem pelo contrário.

Não avaliaram o risco? Com tantos atletas no meu escalão, tinham logo de me escolher? Sabem quantas noites passei em claro, sofrendo ataques de ansiedade, acompanhados de suados pesadelos? – “E se me atasco como é normal? E se faço “mp”? O Fernando e o Manuel vão secar à minha espera, até à partida em massa. Vou passar um vexame! Será um desprestígio para o clube.”

Por que parâmetros é que se terão orientado? Pelo do tipo que mais valor dá aos percursos, passando tempos infinitos em longas pastorícias? Ou o do rapaz que sente uma paixão tão intensa pela Orientação, que a mulher até sente ciúmes? Só se compreende esta decisão, se tiverem sido atacados por alguma virose de verão, daquelas estirpes fortemente masoquistas. Arriscaram, mas não petiscaram.

Apesar do título deste texto vos parecer sugestivo, quero dar uma pequena explicação, para que não criem ilusões. Efectivamente, o significado do termo “esgalhar”, pode entender-se como “deslocar-se a grande velocidade”, mas também tem outras interpretações, como “trabalhar muito” ou “separar galhos dos ramos”. Diria eu, que no presente contexto, acrescentaria o “corrida periclitante sobre uma imensidão de galhos”.

Pois é, o tema desta crónica assenta mesmo nesta última ideia, porque infelizmente as anteriores não se coadunam com a minha prestação. Participar num campeonato nacional de estafetas, com aspirações a um lugar honroso, que no fundo seria conseguir uma pontuação que beneficiasse o clube, deixou-me num estado de efervescência e de atabalhoamento latente.

Tínhamos sido avisados pela Organização, de que certas zonas do percurso na Leirosa Sul, se encontravam pejadas de galhos, ramos e troncos, resultado de um desbaste de pinheiros, ainda por limpar (depois queixam-se de que os incêndios surgem como por milagre). Mas nenhum aviso nos poderia deixar preparados, para aquilo com que fomos confrontados.

As minhas condições físicas nunca são as ideais, mas as mazelas da distância longa, no dia anterior, ainda complicaram mais o assunto. A tudo isto acrescia o “nervoso miudinho” da estafeta, assumindo eu a responsabilidade de abrir os carreiros. Então quando entrei no mapa, fiquei com os cabelos em pé.

Para meu desespero, a informação que nos foi prestada em relação ao estado do terreno, pecou manifestamente por defeito. Dos vinte pontos do percurso, que totalizavam 4.900 metros, mais de metade foram percorridos a esgalhar. Que é como quem diz, progressão em solo instável, que me colocou como primeira prioridade, o cuidado em não me estatelar, em detrimento da orientação essencial.

Nem consegui evitar as quedas desastradas, nem tão pouco controlar as balizas de forma célere. Posso afirmar, que realizei uma prova, dentro da característica bitola do “berdadeiro” e como tal, muito aquém das expectativas. Se na realidade cometi três pastorícias técnicas, também é verdade que a dificuldade sentida na transposição dos galhos, me penalizou severamente. Ainda tenho dúvidas, onde terei perdido mais tempo, nesta conturbada gincana florestal.

Senti alguns problemas para me ambientar à indisciplina da vegetação, tendo a primeira pernada, sido o reflexo dessa incapacidade. Na tentativa de me safar dos tropeções, desviei os olhos do mapa e quando dei por mim, estava a vasculhar balizas que não me diziam respeito.

Ou enxergava onde colocar os pés, ou seguia o azimute, ou tentava ler o mapa em movimento. Quando me abalancei na complicada tarefa da dupla análise, catrapumba…esparramei-me em cima duns troncos, episódio que se veio a repetir uma série de vezes ao longo da etapa, sem consequências físicas, mas com danos visíveis na moral do “berdadeiro” orientista.

Comecei a ter mais cuidado nas progressões e as cotas, reentrâncias e verdes que se seguiram não me incomodaram, até cometer um deslize fatal e evitável, no ataque ao ponto oito - uma depressão no meio de verdes, com detalhes de sobra. Enfiei-me na vegetação com demasiada confiança, negligenciando o mapa e sou castigado com mais de seis minutos.

Nesta altura entrei em stress, pois lembrei-me que esta perda não só iria penalizar o “berdadeiro”, mas principalmente os outros dois colegas de equipa que me aguardavam. Preocupação que não veio beneficiar em nada o resto do percurso. Quanto mais pensava em não me voltar a atascar, mais desorientadas se revelaram as minhas progressões, mais cansado me sentia (corri demais e orientei-me de menos), provocando nova e pesada pastorícia para o ponto onze, apenas pelo simples facto, de não me ter apercebido do atravessamento de uma “auto-estrada” (terríveis aflições).

Quando passei pelo ponto de espectadores (o 14), estava à espera de ouvir alguns incitamentos do género realista - “anda lá oh lesma!”, ou de refinado humor – “estás a fazer dois percursos?”, ou simplesmente sarcásticos - “força, que vem aí o último atrás de ti”. Mas não, pareceu-me que se instalara um silêncio sepulcral (ou terei desligado a ficha?), tal o desânimo que imperava nas hostes “quatro caminhenses” (os meus parceiros de estafeta deviam estar tolhidos de azia).

A derradeira parte do percurso, passava novamente pela zona caótica, o que me fez assaltar o receio, de que as poucas forças que me sobravam, se esfumassem com a necessidade de nova remessa de “saltinhos”. Fui buscar uma dose de reservas aos confins do “berdadeiro”, mas só deu para terminar com uma réstia de dignidade (leia-se, sem “mp” e antes da partida em massa), não mais que isso.

Na passagem de testemunho, nem sei como ainda encontrei a mão do Fernando (podia-se ter recusado, não é?). Só que ele arreganhou os dentes e acabou por recuperar uma grande parte do meu desperdício (craque é mesmo assim). No entanto, uma atitude por parte do outro elemento da equipa tocou-me profundamente, comovendo-me quase até às lágrimas. Estando o resultado irremediavelmente comprometido e demonstrando uma solidariedade sem limites, decidiu não marcar um ponto, para que eu não me sentisse isolado na desgraça. Isto sim é jogo de equipa. Obrigado meu amigo.

Enfim, comportamento pessoal frustrante, numa estafeta mal esgalhada, que me deixou deveras constrangido e a necessitar urgentemente de umas “minis” reconfortantes, que me atenuassem a vergonha e elevassem a moral, totalmente esfrangalhada.
 

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020 – 12:28:34

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