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São como divãs

…Estou há largos minutos a olhar para o teclado, sem saber o que vos dizer…

Não é meu costume usar desculpas de mau pagador, tentando explicar a incompetência. E também não é frequente, faltarem-me as palavras para descrever as peripécias de que sou protagonista. Quando não há factos…inventam-se! Infelizmente, não tem havido necessidade de usar a minha veia de ficcionista (fraca por sinal). A vida de um “berdadeiro orientista” está pejada de episódios, que comporiam um soberbo argumento, para uma longa-metragem de ritmo atabalhoado.

Todavia, nesta altura dos acontecimentos há justificações difíceis de engolir.

Se o bom senso fosse o meu forte ou se pelo menos dispusesse de um pingo de vergonha, não estaria aqui a carpir mais umas quantas mágoas. Julgo até que deveria proceder a um período de luto, como forma de esquecer a manhã aziaga nas dunas do Palheirão e simultaneamente defender-me de demasiada exposição. Contudo, por respeito a todos os que me têm aturado e sobretudo por consideração aos responsáveis do Ori-Estarreja, que me ofereceram um percurso impecável (e que eu tratei tão mal), vou fazer um esforço para tentar perceber, o que efectivamente provocou tamanho desatino. Se no mínimo, conseguir exorcizar fantasmas, dar-me-ei por satisfeito.

Não me posso queixar das características do terreno. Adoro as dunas, mesmo quando me atolo na areia é sempre preferível às infernais “pedrolas”. Para além disso, sou visitante assíduo dos mapas das Dunas de Cantanhede, tendo obtido resultados razoáveis, nunca vítima de nenhuma tragédia.

Também não sofri com a chuva, vento, frio ou calor. A manhã apresentou-se calma e de temperatura amena, o ideal para a prática de gloriosas façanhas. Quanto às questões técnicas, já abordei a qualidade do traçado e a distância de 4.300 metros, com os seus 21 controlos, para um desnível levezinho, decididamente não eram problema que me apoquentasse. Não corri demais, nem de menos (e a escala de 7.500 proporcionava hesitações). Não fui acometido por nenhum ataque de fraqueza ou qualquer outro achaque de ordem física e a bússola indicou sempre o norte, hehe!

Se na realidade não havia nada para “botar” defeito, porque carga de água fui o último do escalão, a léguas de distância dos meus companheiros? Convém esclarecer, que este facto acontece pela primeira vez na carreira do “berdadeiro”. Posição ingrata e deprimente, que nem o primo “espécie” jamais ousou arrecadar.

Podia dar uma resposta politicamente correcta – “fiz o meu melhor, a concorrência é que foi mais forte”. Errado! Efectivamente, a maioria dos meus parceiros são rapazes melhor apetrechados do que eu (falando de orientação, note-se!), apenas não necessitavam que lhes desse uma substancial ajuda, com três pastorícias das antigas. Comportamento desastroso, de difícil compreensão e inconcebível, para um tipo que já leva no seu curriculum umas centenas de percursos.

Sinto-me de tal maneira confuso com a situação, que não sei se deva ir ao psiquiatra, consultar um psicanalista ou visitar um terapeuta de azimutes. – “Porque não vais antes a um geriatra? Cheira-me a atitudes de xexé. Tens tomado as gotas?”. Já estranhava a falta de solidariedade da “vozinha”.

Depois de analisar no “detector de mentiras” o registo da minha navegação, por pouco não ficava zonzo com tanta desorientação. A partir do oitavo ponto, o descalabro foi quase total. Então a pernada (150 mts) para a depressão do ponto 9 (camuflada por uma imensidade de galhos), assemelhou-se a uma demorada viagem de carrossel, tal o repetitivo sobe e desce da mesma duna. Afirmam os entendidos, que elas são suaves e cómodas como divãs, mas valia a pena ter abusado? Um atascanço deveras pesado e inaceitável.

Debaixo da ressaca de uma pastorícia anormal, segui para os pontos seguintes, com o moral combalido, não entendendo o que me tinha acontecido. Progredindo como um autómato, controlei um quinteto de balizas, sem grandes prejuízos. No entanto, os insondáveis mistérios da mente do “berdadeiro” voltaram a surgir em força e os quatrocentos metros que totalizavam a décima quinta pernada, transformaram-se em nova e atribulada tarefa. Dois trilhos distantes cerca de cem metros, mas de configuração idêntica, aliados a um azimute paralelo, resultaram em mais oito minutos de desnorte – aflitiva e frustrante confusão.

Em vez de picar o ponto “47”, controlo o “57”, que por ironia do destino também me pertencia (seria o seguinte) e ambos localizados junto a caminhos (enganadores!). Ainda tive o discernimento para perceber o erro, evitar “in extremis” o “mp” e dali partir à desfilada para o 15, para voltar novamente ao 16. Um vaivém cansativo por entre incómoda vegetação rasteira. Fiquei num estado anímico deplorável, com vontade de me arremessar para um silvado e castigar o corpinho por tanta inépcia (safei-me, porque não avistei nenhum, hehe!).

Pensei que ao faltar apenas cinco pontos, as minhas imbecilidades estivessem concluídas. Puro engano! Pois se a ideia era realizar a pior prova da “istória”, então teria de continuar a dar largas à “loucura” que me assolava. Por distracção (só podia!), ainda efectuei mais uma pernada atinada, mas foi sol de pouca dura, porque de imediato, ao dirigir-me para o encontro com os verdes do ponto 18, cometer o derradeiro e definitivo equívoco – de atascanço em atascanço, até à tragédia final.

- “Não acredito que tenhas coragem de contar esse desvario. Eu nunca mais saía à rua”. – “Ok! Desta vez vou seguir o teu conselho. Basta de vexame!”.

Bom, digamos que constatei a existência de “setenta e oito” tufos verdes, com o fugitivo do “39” a colocar-se sub-repticiamente no último da contagem. Dá para perceber? Claro que sim. Tristes coincidências de um “berdadeiro”, com os neurónios totalmente em estado de sítio. Uau! As dunas são tão agradáveis, que dão vontade de as desfrutar ao máximo.

Ou como diria o cantor – “…Deitados nas dunas, alheios a tudo…”.

Permitam-me que não mencione o tempo realizado. Se estiverem mortos de curiosidade e dado que eles são públicos, consultem os resultados na página do evento. De qualquer modo, aconselho vivamente a não o fazerem, pois os mais sensíveis poderão não aguentar o choque.

Neste momento, para além de uma neura descomunal que ainda perdura, assiste-me um certo receio, de que poderei ser alvo de um processo sumário de reforma compulsiva. Atitude que honestamente compreendo, porque eu perante tamanha dose de ineficácia, também não contemporizaria. Tenho os dias contados. 
 

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020 – 10:56:43

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