
Um romance original, escrito sem pressas já numa idade madura, valeu a Cristina Maria de Moura Cosmeser escolhida como vencedora da 12ª edição do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís.
Com o título “Um Símbolo Vivo”, foi consensual para o Júri que se trata de “um romance que articula, com desenvoltura o jogo de prudências e astúcias das relações humanas”.
Na acta do Júri, observa-se que o romance toma Lisboa como “cenário por onde a imaginação faz circular relações pessoais e amorosas. A Cidade e seus lugares desenham uma geografia de percursos afetivos, e, por vezes de sonhos e fantasias da protagonista, Silvana, uma mulher solitária em busca e si mesma”.
Para Cristina Cosme, já premiada noutras andanças literárias, com conto e poesia, a pintura, é outra das suas paixões - “tomou conta de mim, dividiu-me. Exigia a minha atenção horas infinitas de dia e de noite. Era a minha outra inspiração”
Docente do ensino secundário já aposentada, licenciada em Filologia germânica, Cristina Cosmefrequentou a Sociedade de Belas Artes e a Fundação Ricardo Espírito Santo, com tempo ainda para abrir uma galeria de Arte, encontrando na pintura “por muitos anos, a minha forma de encontrar uma estética consentânea com a minha concepção de vida”.
Apesar da pintura a absorver, com exposições no país e no estrangeiro, Cristina Cosme não se afastou da escrita que “nunca deixou de estar no centro das minhas aspirações desde muito cedo, sempre fez parte de mim, era-me intrínseco, estava lá sempre e nunca a vi como forma de ascenção ou veleidade”.
“Ser-se romancista – confessa - era um passo distante e improvável. Dar esse passo era considerar se outros olhos veriam com agrado o que eu podia produzir, por algum efeito reflexivo ou estético”.
Ao retirar-se da actividade de docente, optando pela reforma, Cristina Cosme sentiu que “tinha chegado o tempo de escrever com outra convicção, e tornou-se um caso sério. A produção literária de grandes romancistas, ensaístas e filósofos deixou-me, ao longo do meu percurso, marcas reveladoras de talentos superiores e são essas as minhas referências, destacando, entre muitos, a Yourcenar ou Kafka, Saramago ou Eça”.
Com modéstia, reconhece que “escrevi um livro. Não obstante a 1ª. experiência é falível, a essência escapa-se-nos, funde-se com a inutilidade e é preciso reavaliar, mas vi com prazer redobrado que escrever é arte pura, um desafio ao acto criativo e à própria inteligência, à estética da palavra, do significante e do significado em conjugação tal que faz refletir e encantar. E escrevi este”.
Sobre o romance “Um Símbolo Vivo” a autora conta que se inspirou no pós-25 de Abril, perante “uma geração marcada por uma educação austera e paternalista”, que se vê impelida “a gerir o obscurantismo do passado com um novo mundo e a nova liberdade oferecida”.
Para Cristina Cosme a obra vencedora “não é um romance linear, há nele vários espaços dramáticos, drásticos, trágicos e adversos, espaços de perturbação mental, de lucidez e de reflexão, contextos situacionais e referenciais, cenários de várias temáticas cuja unidade constitui a procura dos mais elevados anseios”.
“Todos os elementos formais e conceptuais – diz - contribuem para o mesmo fim, para que essa busca encontre respostas. Em simultâneo, existe uma ambiguidade trazida por uma ironia que não se desvenda, um jogo de hipóteses e de mistério que, sendo real, transpõe o real. Um jogo fechado que o leitor tem de abrir e interpretar à sua maneira”.
E conclui: “Todas as reflexões sobre a existência humana não passam de hipóteses, não há certezas no mundo do romance, cabe ao leitor fazer delas as suas certezas ou não”.
O Júri que atribuiu o Prémio, além de Guilherme D`Oliveira Martins, que presidiu, em representação do CNC – Centro Nacional de Cultura, integrou José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores; Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas; Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários; e, ainda, Maria Alzira Seixo, José Carlos de Vasconcelos e Liberto Cruz, convidados a título individual e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.
Recorde-se que, o Regulamento do Prémio Revelação, que deixou de fixar, em 2016, um limite de idade para os concorrentes, manteve, contudo, a exigência de serem autores portugueses, ”sem qualquer obra publicada no género”. A iniciativa conta, desde o primeiro momento, com o apoio da Editorial Gradiva, que assegura a edição da obra vencedora, através de um Protocolo com a Estoril Sol.