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Alceu Valença actuou em Lisboa no Teatro Tivoli no passado dia 21 de Janeiro e tem agendado para o Porto, um concerto na Casa da Música no dia 24 de Janeiro. Esta digressão em Portugal tem como título “Vivo! Revivo!”, que é em simultâneo o nome do seu novo CD/DVD que tem a função de dar continuidade Vivendo e Revivendo músicas suas da década de 70.
O cantor encheu esta sala de espectáculos da capital para uma excelente actuação de duas horas.
A sua exibição foi um misto de muita energia física em palco, com momentos mais calmos e mesmo de reflexão, mas sempre com muita interacção com o público. O público esse que estava sentado no início da actuação, no fim já estava de pé e mesmo algumas pessoas a dançar nas laterais da sala ao som do artista. Alceu conseguiu contagiar os espectadores com a garra que possui com a sua idade.
A primeira parte de “Vivo! Revivo!” Alceu revelou que a túnica que tinha vestida naquele momento era de uma época passada, e que a tinham guardado por ele. Agora que lançou o tema que reflete esse mesmo passado, decidiu utilizá-la para também revivê-lo dessa forma.
O excelente alinhamento musical para mostrar a sua “Vivência e Revivência” foi no total de 19 temas:
Agalopado
Anjo de Fogo
Espelho Cristalino
Dente de Ocidente
Mensageira dos Anjos
Descida da Ladeira
Pontos Cardeais
Casamento da Raposa com Rouxinol
Edipiana
Papagaio do Futuro
Você Pensa
Sol e Chuva
Coração Bobo
Pelas Ruas que Andei
La Belle de Jour/Girassol
Taxi Lunar
Como 2 Animais
Anunciação
Morena Tropicana
No fim do espectáculo tivemos uns breves momentos de boa disposição com um dos elementos da sua banda e algum público. Muitos queriam levar para casa uma recordação de Alceu, nem que fosse um autógrafo em algum artigo alusivo ao autor. Houve uma família que confessou que veio de Itália especificamente para o ver actuar.
Alceu Valença é oriundo de Pernambuco, Brasil, e tem uma carreira com trabalhos que variam entre muitos discos de estúdio, gravações ao vivo e o filme “A Luneta do Tempo”.
O artista trocou direito e jornalismo pela carreira das artes musicais, tendo como instrumentos base a sua voz e o violão (guitarra).
Alceu tem vários prémios ao longo seu percurso musical em que o cantor fala de dois deles em resposta ao Portal AMMA na entrevista que lhe fizemos:
AMMA - O que o levou a escolher Portugal para estes dois concertos?
Alceu Valença (AV) – Possuo uma relação muito forte com Portugal, que tem se intensificado nos últimos anos. Passo cerca de dois meses por ano no país e apresento a cada temporada um espetáculo diferente. Em 2013, cantei fiz um show de forró no Ano do Brasil em Portugal, no LX Factory, em Lisboa. No ano seguinte, me apresentei no mesmo teatro em Lisboa e na Casa da Música no Porto com uma orquestra brasileira, a Orquestra Ouro Preto, com quem gravei o CD / DVD Valencianas, que confere um tratamento camerístico às minhas canções. Em 2015, trouxe a Portugal um show de banda, com os grandes sucessos da minha carreira. Fizemos o Theatro Circo, em Braga, tocamos também em Sintra e Santa Maria da Feira. Este ano são duas apresentações do show Vivo! Revivo!, título do meu novo CD/DVD, onde recrio parte do meu repertório da década de 70, com uma timbragem próxima do rock, que traça uma ponte entre a música do Nordeste do Brasil, de onde venho, e a psicodelia. É um show moderno, alegórico, metafórico, sempre contestador. Traz um pouco do espírito de rebeldia que minha geração cultivou, um confronto direto com a censura que vigorava no Brasil da Ditadura Militar. Apesar do contexto histórico, a química permanece jovem, atual. Como disse um repórter do New York Times depois de assistir a um dos meus shows: é um rock que não é rock.
AMMA - Que motivo teve para trocar o mundo do direito e do jornalismo pela carreira musical?
AV – Me formei em Direito pela Universidade Federal de Recife, muito por insistência de meu pai, que foi procurador do estado de Pernambuco e deputado federal. O Direito me proporcionou uma visão mais ampla das questões humanas, sobretudo as aulas de Filosofia, que influenciaram profundamente meu modo de pensar, o que acabou refletindo na minha obra artística. Atuei brevemente como advogado, no escritório de um primo, e fui redator de jornais e revistas em Recife. Durante a faculdade, período em que cheguei a ser preso pela ditadura por participação no movimento estudantil, fui selecionado para um programa de intercâmbio na Universidade de Harvard, nos EUA. Entre uma conferência e outra, eu costumava levar meu violão até a praça e tocar gêneros folclóricos da minha região que andavam fora de moda até mesmo no Brasil (risos). Eram emboladas, modas de viola, martelos agalopados, gêneros que possuem influência da música árabe, mourisca, ibérica, lusitana. Os hippies e os Hare Krishna adoravam, dançavam intensamente aquelas músicas. A cada dia havia mais gente. Cheguei a sair num jornal local, que me chamou de “o Bob Dylan brasileiro” porque eu disse que fazia protest songs. Eu nunca tinha escutado Bob Dylan, até hoje escuto muito pouca música. Mas senti que poderia haver espaço para a minha música. Quando voltei ao Brasil, fui classificado para concorrer no Festival Internacional da Canção. Mudei-me para o Rio de Janeiro e investi tudo na carreira musical. Passei dez anos militando no underground da música brasileira, período em que saíram a maioria das composições de Vivo! Revivo!. A partir dos anos 80, os primeiros sucessos de rádio começaram a aparecer e minha carreira tomou um impulso grande. Músicas como “Tropicana”, “Anunciação”, “Belle de Jour”, “Coração Bobo” e tantas outras, que não deixo de cantar nos shows. São músicas que marcam gerações.
AMMA - Quando gravou o filme "A LUNETA DO TEMPO", que grande desafio teve? Que mensagem quis transmitir com este trabalho?
AV – Filmar a Luneta do Tempo foi um dos grandes prazeres que tive. Acredito na arte que aprofunda questões, suscita debates, emociona as pessoas. Minha arte sempre se aproxima da reflexão, seja na música, na poesia, agora no cinema. É uma arte espontânea de um criador que não vai pela cabeça de ninguém. Foram 14 anos trabalhando neste filme, desde a elaboração do roteiro até as duas etapas da filmagem (em 2009 e 2011), passando pela direção, montagem e a finalização. O filme tem um país político também, a partir do momento em que ele questiona o papel mítico de Lampião, o nome maior do cangaço, que um amigo meu chama de movimento pré-revolucionário. E escolhi um viés lírico, poético, mais ainda assim político. Vislumbro um Lampião onírico que não conseguiu superar as dores do mundo mesmo depois de morto. Participamos de diversos festivais no Brasil e no exterior, fomos premiados em Gramado, o mais importante festival de cinema do país. O filme em circuito em 2016. Gostaria muito de vê-lo exibido em Portugal.
AMMA - Ao conquistar o Grammy no Brasil em 2014, e o Prémio de Música Brasileira em 2015, sentiu como sendo um reconhecimento pela sua carreira?
AV - Creio que tenha a ver com o fato de eu ser um artista que jamais fiz concessão ao comercialismo barato, às imposições das gravadoras, aos caprichos do mercado. Minha arte é íntegra, verdadeira, devotada. Nunca abri mão das minhas convicções nem nunca deixei que pensassem por mim. Tenho total controle sobre minha obra, minhas escolhas estéticas. E sempre tive este compromisso com a música brasileira, com a cultura do Nordeste. A maior responsabilidade do artista é manter-se fiel à sua arte. Esta sempre foi a minha tônica. É como eu dizia aos executivos das gravadoras quando estes vinham com fórmulas mirabolantes e duvidosas de vendagem: vocês precisam pensar mais nos pontos de vista do que nos pontos de venda. Digo que, enquanto houver fronteiras, sou antes de tudo pernambucano, nordestino, brasileiro e, por isso mesmo, um ser planetário. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, como diria o filósofo Ortega y Gasset.
AMMA - Que projectos tem para breve? Tem previsto o lançamento de um novo disco, ou a aposta numa digressão? O que tem para presentear os fans?
AV – Assim que voltar ao Brasil, me preparo para o carnaval. É um show com naipe de metais e ênfase nos gêneros do carnaval pernambucano, como o frevo, o maracatu, a ciranda. Em seguida, faço um show acústico, somente eu e o guitarrista Paulo Rafael. Também integro o projeto O Grande Encontro, ao lado de meus colegas de geração Geraldo Azevedo e Elba Ramalho. O DVD acaba de sair no Brasil e deve ser lançado aqui também. Ou seja, farei quatro shows totalmente diferentes entre si em pouco mais de um mês. Costumo dizer que sou como um espelho do meu povo. Eu me reflito nele e ele se reflete em mim.
Texto e Fotos: Pedro MF Mestre